terça-feira, 10 de maio de 2016

Rebeldia

Quando tomei consciência de que o mundo não era um lugar sempre seguro, bom, prazeroso, foi-me dito pela minha mãe, com sofrimento na voz e no tom que se usa para falar das coisas de que se sente uma falta dolorosa, que existira um irmão que morrera e que a dor sentida, permanecia e sempre a acompanharia até à sua morte. O nosso irmão vivia nas fotografias da sala e do quarto dos meus pais, por vezes vestido com a farda da mocidade portuguesa, a que não pertencia mas que, segundo a minha mãe, eram obrigados a ter. Não pertencia ao movimento, dizia a minha mãe mas o certo é que a imagem que guardo dele é com ela vestida, todo prezado, um pequeno soldado pronto para a luta. 
Num canto do seu guarda-fatos a minha mãe guardava, religiosamente, os seus livros e os cadernos da escola e todos os desenhos e postais de dias da mãe e do pai, onde escrevia o quanto os amava, postais sempre acompanhados de uma imagem da Nossa Senhora ou de São José, tão bem ao gosto do catolicismo conservador do Estado Novo. Guardava também alguma roupa, não muita, o vestidinho do batizado e recordo que, da farda da Mocidade Portuguesa restava só o cinto, em couro e com um S desenhado na fivela. Pequena que era nunca me questionei sobre o significado do S do cinto, para mim poderia ser um S como um C ou um K. Não me dizia nada. Regressada a Almada pouco depois da revolução de 1974, vindos de Moçambique vivíamos a comoção desses tempos, um tempo de esperança e novos começos. Eu sentia o frenesim, a discussão indecifrável de política dos adultos, cantava " Uma gaivota voava, voava", canção que repetia até à exaustão e habituara-me a trautear o hino do Movimento das Forças Armadas que me parecia heróico. Tinha 7 anos mas recordo imagens, sons, a televisão a preto e branco com as notícias frenéticas, entusiasmadas dos repórteres. Sabia que algo de muito solene tinha acontecido e recordo ter decidido, desde logo que pertencia ao Partido Comunista. Não sei porque tomei essa decisão mas pareceu-me que, por aquela altura, e do que tinha decifrado da linguagem dos adultos, eram eles os bons. Do General Ramalho Eanes recordo um personagem austero e lembro-me de pensar que aqueles óculos de massa escuros e excessivamente grossos, me causavam algum respeito. O homem não sorria mas o momento não era para risotas, intuía eu. Também gostava do camarada Vasco Gonçalves e do  Pinheiro de Azevedo, não porque percebesse algo do que diziam mas porque me parecia estarem também do lado dos bons.
Anos mais tarde, vinda de uma estadia de 5 anos na Terceira, em plena fase rebelde, numa das incursões ao sótão, onde encontrava sempre tralha interessante, volto a descobrir o cinto, guardado com outros objectos do passado. Decido usar o cinto que pertencia ao meu irmão, porque tinha sido dele e porque era giro. Era a época dos vestidos indianos com as malas de cabedal compradas numa ruela de Almada, malas que escureciam com o tempo. Era o tempo das missangas e dos sapatos mocassins, aquele cinto tinha tudo a ver, de couro curtido, muito hippie, achava eu, o S desenhado continuava indecifrável para mim; e era assim, adolescente, que ia vender tralha à feira da ladra. Alguns anos mais tarde, já depois dos meus gostos estéticos terem mudado, vendo de novo o cinto e olhando com olhos de quem já reflecte com cabeça de adulto, não necessariamente melhor, percebi o S e dei conta do pecado cometido. Mas logo ali, sem culpas me absolvi.  O cinto por lá permanece, no sótão, rodeado de tralha do passado.


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