terça-feira, 10 de maio de 2016

Filhos e pais

Filhos e pais
Os filhos aparecem e desassossegam-nos para sempre. Trazem primeiro a pequenez e a fragilidade e permitem que nos apaixonemos, irremediavelmente, para o resto das nossas vidas; seguem depois com a descoberta do mundo e a devoção aos seres a quem acharam por bem acolher como pais, a quem recorrem e para quem correm sempre, na procura do seu colo e do calor do seu corpo onde se aninham na única segurança em que confiam, fazendo-nos pensar como somos importantes, como existimos para além da nossa condição humana, como evoluímos para uma condição superior, de pais; descobrem-se como seres individuais e percebem que os pais, afinal,  não são o centro de tudo, enviesados no equilíbrio do mundo em que vivem e, é por essa altura que começa tudo a descambar, primeiro devagarinho em cambiantes discretos e depois à descarada; quando entram na adolescência, percebem que os pais  não são nada daquilo que andaram anos a apregoar e que existem para os envergonhar; passam a fase, passageira,  do conservadorismo marreta com os pais a servirem de saco de pancada! É  deles recriminações do tipo " comporta-te, já viste a idade que tens?!" ou " não percebo o que a vida te ensinou porque com os anos que tens parece que não aprendeste nada!" Tentam, a todo o custo, não serem associados com semelhante tipo de pessoas, os pais; estes só lhes causam constrangimento e embaraço e em público não sabem comportar-se. No entanto, toleram-se porque são o sustento das suas vidas e acreditam que, com os seus constantes ensinamentos, irão aprender, pelo menos, a comportarem-se quando em presença dos amigos dos filhos. Os pais há muito que perderam a importância central no mundo que os rege, os amigos são a referência primeira e destes querem o agrado, o apoio, a aceitação. As confidências que se reservavam aos pais dão-se agora aos amigos, os pais tentam em investidas mais ou menos desajeitadas mas a resposta é "não te metas nisso! "  ou " sabes, o mundo que era o teu já evoluiu, actualiza-te".  Do ponto de vista dos filhos, crescer não é fácil e os pais não ajudam, muitas vezes trapalhões, incoerentes como poucos; primeiro, fazem experimentações pedagógicas: se os filhos são pequeninos as receitas que se conhecem para educá-los são simples e normalmente dão resultado; à medida que os miúdos pensam e tornam-se críticos a frase " Obedeces, porque sim! " já não faz sentido porque a esta frase segue-se outra " Obedeço-te porque sim, porquê?! Já viste que treta de argumentação é essa?". Uma coisa é educar crianças pequenas, está tudo escrito e vai funcionando, com  adolescentes e adultos jovens a empreitada é muito mais complicada; os jovens gostam de argumentar e de tal forma o fazem que, na dialéctica entre pais e filhos, os primeiros desistem por cansaço e falta de prática; coisa que os filhos sabem é discutir e nada melhor para eles que discutir com os pais, skill que nasce e cresce com eles e que se reserva para quando chega a altura e nessas ocasiões, eles brilham! Se nenhuma das experimentações pedagógicas utilizadas funcionam, a chantagem emocional paterna é usada em desespero. Em jovens batidos e já avisados, tais estratégias  não surtem efeito para além das frases de censura " Isso, faz-te de vítima, fica-te muito bem!". Quando por fim, a tão utilizada " Encerrou a conversa!" surge, os filhos argumentam e bem, que é impossível discutir como gente crescida se os pais se arrogam da sua condição autoritária latente para impor algo que deveria ser resolvido pelo diálogo. Uma canseira!


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