Filhos e pais
Os filhos aparecem e desassossegam-nos
para sempre. Trazem primeiro a pequenez e a fragilidade e permitem que nos
apaixonemos, irremediavelmente, para o resto das nossas vidas; seguem depois
com a descoberta do mundo e a devoção aos seres a quem acharam por bem acolher
como pais, a quem recorrem e para quem correm sempre, na procura do seu colo e
do calor do seu corpo onde se aninham na única segurança em que
confiam, fazendo-nos pensar como somos importantes, como existimos para além da
nossa condição humana, como evoluímos para uma condição superior, de pais; descobrem-se
como seres individuais e percebem que os pais, afinal, não são o centro
de tudo, enviesados no equilíbrio do mundo em que vivem e, é por essa
altura que começa tudo a descambar, primeiro devagarinho em cambiantes
discretos e depois à descarada; quando entram na adolescência, percebem que os
pais não são nada daquilo que andaram anos a apregoar e que existem para
os envergonhar; passam a fase, passageira, do conservadorismo marreta com
os pais a servirem de saco de pancada! É deles recriminações do tipo
" comporta-te, já viste a idade que tens?!" ou " não percebo o
que a vida te ensinou porque com os anos que tens parece que não aprendeste
nada!" Tentam, a todo o custo, não serem associados com semelhante tipo de
pessoas, os pais; estes só lhes causam constrangimento e embaraço e em público
não sabem comportar-se. No entanto, toleram-se porque são o sustento das suas
vidas e acreditam que, com os seus constantes ensinamentos, irão aprender, pelo
menos, a comportarem-se quando em presença dos amigos dos filhos. Os pais há
muito que perderam a importância central no mundo que os rege, os
amigos são a referência primeira e destes querem o agrado, o apoio, a
aceitação. As confidências que se reservavam aos pais dão-se agora aos amigos,
os pais tentam em investidas mais ou menos desajeitadas mas a resposta é
"não te metas nisso! " ou " sabes, o mundo que era o teu
já evoluiu, actualiza-te". Do ponto de vista dos filhos, crescer não
é fácil e os pais não ajudam, muitas vezes trapalhões, incoerentes como poucos;
primeiro, fazem experimentações pedagógicas: se os filhos são pequeninos as
receitas que se conhecem para educá-los são simples e normalmente dão
resultado; à medida que os miúdos pensam e tornam-se críticos a frase
" Obedeces, porque sim! " já não faz sentido porque a esta frase
segue-se outra " Obedeço-te porque sim, porquê?! Já viste que treta de
argumentação é essa?". Uma coisa é educar crianças pequenas, está tudo
escrito e vai funcionando, com adolescentes e adultos jovens a
empreitada é muito mais complicada; os jovens gostam de argumentar e de tal
forma o fazem que, na dialéctica entre pais e filhos, os primeiros
desistem por cansaço e falta de prática; coisa que os filhos sabem é discutir e
nada melhor para eles que discutir com os pais, skill que nasce e cresce com
eles e que se reserva para quando chega a altura e nessas ocasiões, eles
brilham! Se nenhuma das experimentações pedagógicas utilizadas
funcionam, a chantagem emocional paterna é usada em desespero. Em jovens
batidos e já avisados, tais estratégias não surtem efeito para além das
frases de censura " Isso, faz-te de vítima, fica-te muito bem!". Quando
por fim, a tão utilizada " Encerrou a conversa!" surge, os filhos
argumentam e bem, que é impossível discutir como gente crescida se os pais se
arrogam da sua condição autoritária latente para impor algo que deveria ser
resolvido pelo diálogo. Uma canseira!
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