O palavrão! Nunca me adaptei muito bem ao palavrão, a vontade de o utilizar é grande principalmente pelas suas qualidades profilácticas e de combate à dor, mas a minha educação católica e conservadora sempre me refreou! Ultimamente tenho uma relação mais descontraída com ele e uso-o de uma forma menos complexada!
Se há muitos anos atrás me atrevia a dizer a palavra "porra", ficava sempre com alguns complexos de culpa porque menina que é correcta não diz asneira, mas rapidamente me socorria do argumento " porra não é asneira, vai ver ao dicionário, PORRA!" Era a única que sabia que podia dizer sem estar a ser completamente subversiva, já todas as outras que ouvia, ditas normalmente pelos rapazes, soavam-me cruas e proibidas!
Se há muitos anos atrás me atrevia a dizer a palavra "porra", ficava sempre com alguns complexos de culpa porque menina que é correcta não diz asneira, mas rapidamente me socorria do argumento " porra não é asneira, vai ver ao dicionário, PORRA!" Era a única que sabia que podia dizer sem estar a ser completamente subversiva, já todas as outras que ouvia, ditas normalmente pelos rapazes, soavam-me cruas e proibidas!
A minha mãe que sempre nos educou na certeza que o palavrão era indigno de uma mulher, quando eu e a minha irmã crescemos e começamos a dar-lhe cabo da paciência com as nossas dúvidas existenciais juvenis começou a utilizar o "merda" quando sentia que a discussão conosco não iria ter um final satisfatório para o seu lado. Por esse motivo, esta palavra começou a frequentar-nos em algumas ocasiões. Se repreendia a minha mãe, esta dizia " merda não é asneira!" Era a única ocasião em que a minha mãe mentia deliberdamente, que eu sabia que aquela palavra não se dizia! Tinha consciência que ela a dizia porque se sentia por vezes frustrada e quando a lógica e a sensatez não resultavam, uma boa asneirada resolvia a situação À conta disso comecei também a encerrar algumas refregas com ela com um rotundo "merda", circunstância que a deixava profundamente ofendida; inútil dizer-lhe que não estava propriamente a manda-la à merda, era só um desabafo que não visava ofendê-la! Pois sim, dizer, "Ó mãe merda!" não é muito diferente de dizer "Ó mãe, vá à merda!" mas para mim fazia toda a diferença! Engraçado como as coisas são, hoje sou eu que, derrotada e frustrada encerro algumas disputas verbais com os meus filhos com o consolador "Merda!". Que raio de exemplo estou eu a dar aos meus filhos?! pergunto-me de mim para comigo, alguns pruridos pedagógicos que rapidamente enxoto do meu pensamento, que diabo, sabe bem, fonix! É só uma reacção momentânea, de utilização S.O.S quando mais nada resulta! Não deve ser, de jeito algum, utilizada de forma rotineira porque perde o seu impacto! O espanto no rosto dos meus jovens é genuino quando lhes espeto esta enormidade pelas suas orelhas a dentro! Tem eficácia porque, não se espera que a mãe, a sua própria mãe lhes dirija nestes modos para mais sabendo eles que a mãe não diz palavrões! Este "merda" significa tão só "encerrou a conversa, a minha paciência convosco está no limite, façam-se invisíveis!" Uma prima minha, contou-me esta história deliciosa: há alguns anos atrás vivia perto de uma amiga que tinha tido um bébé há pouco tempo e que como todos os bébés, este chorava e como todas as recém-mamãs esta também andava cansada e desesperada com os permanentes caprichos do pequeno ser. Um dia, da varanda da sua casa e depois de ter ouvido o seu bébé chorar tempos sem fim, ouviu a minha prima a resposta da sua cansada mãe "Vai à merda, bébé, vai à merda!". Duvido que tenha tido algum efeito na tenra criança mas sem dúvida que para a mãe foi aliviante!
Admito, alguns palavrões são muito fortes, mas para mim nada pior do que aquele palavrão começado com o "C" ! Pode-se sempre substituí-lo pelas suas versões mais benignas e sentir parecido efeito: o caraças, o catano, o carago, mais amiude o CARAMBA! A original é uma palavra feia e ressonante, não dá para dizer um "caralho" entre dentes, a segunda e terceiras silabas são demasiado sonoras! E fosca-se, asneira que é asneira tem que ser dita de voz cheia! Mas não por mim que tenho vergonha, até vergonha para o dizer quando estou sozinha e acabei de morder a bochecha com todo o peso de um saco de cimento de 50 kilos em cima e apeteceria tanto dizer "cum caralho!". Esta palavra é muito descritiva, já o "foda-se" é mais vago , um tempo verbal vagamente indistinto que tanto pode ser hoje como nunca e não fala de ninguém em particular! Não ofende ninguém, ao contrário do "vai-te foder", aí a coisa pia mais fino e já parte para o insulto, não é inofensivo é pressupõe sempre agressividade e mau conviver. Ninguém que dê uma topada no pé na quina da porta, diz para esta: "vai-te foder!!"; não tem lógica mas no entanto diz com grande propriedade "foda-se", fica bem, alivia como o caraças, é um desabafo perfeitamente inócuo e de utilidade comprovada até pelos estudos científicos que asseguram a eficácia anestésica de um bom palavrão! Este verbo tem imensas aplicações e consoante a forma e a entoação como é dito assim significará coisas distintas: dizer "estás fodido comigo!" é diferente de dizer "estás fodido!"; no primeiro caso é certo que quem o pronunciou irá às trombas do visado, mais cedo ou mais tarde! Já a segunda frase pode significar isso também mas é mais certo que indique, de uma forma vaga mas igualmente dolorosa, o quando o infeliz está tramado, de uma forma ou outra, dê lá para onde der, sem fuga possível! Aliás, é aqui que os amigos, não sem uma pontinha de sonso prazer nos dizem:" andaste a esconder rendimentos... estás fodido, mais cedo ou mais tarde vais ser caçado pelas finanças" ou então "Ela já te apresentou aos pais?!... estás fodido, não te dou um ano até estares casado!". A expressão "vai-te foder!" é das três a mais ambígua e a menos franca: enquanto a primeira é uma honesta constatação bélica, uma promessa a realizar e a segunda uma afirmação amigável e condescendente, um aviso amigo do que poderá correr mal, a terceira traz um belicismo cobarde: o emissor deixa às mãos do acaso ou ao cuidado de uma entidade superior, que o visado se foda (leia-se, se lixe)! O emissor não quer sujar as mãos, não tem tomates para isso, apenas tem esperança que o segundo sofra pela ofensa cometida. Deixa às mãos do destino a forma como o outro se fode desde que se foda efectivamente!
Outra expressão de toda a beleza semântica é a grandemente utilizada " Que sa foda!"! Não deve haver expressão mais genuinamente portuguesa e que revele toda a postura pró-activa deste povo: "a crise está a dar cabo deste país? que sa foda!, também mais fodidos que isto não podemos ficar!". No fundo exprime de forma simples o carácter optimista (ou acomodado) da alma lusitana! "O mundo está a desabar sobre nós? que sa foda, era uma questão de tempo!" "Perdi a bolsa de estudo? Que sa foda, também não tinha direito a ela, falsifiquei a documentação!" E por aí fora...
Por vezes estas expressões revelam pouca coerência senão vejamos: quando se diz: " estou fodido contigo!" significa que o primeiro está furibundo com o segundo, no entanto dizer "estás fodido comigo!" não significa necessariamente o inverso! Mas, no entanto, se da exclamação cheia de intenções do "estás fodido comigo!" acrescentarmos uma interrogação a medo " estás fodido comigo?!" aí aumenta a coerência porque já se entende que é sempre o sujeito da acção aquele que sofre o agravo em apreço!
Nas minhas aulas, num jogo de futebol ouvir um "Ó caralho, passa a bola!" não é o mesmo que dizer "caralho que já me magoei"; no primeiro caso o caralho é o sujeito ( e portanto, inadmissível), no segundo caso é um desabafo nascido da dor física (e se não admissível, pelo menos compreensível). É preciso sempre procurar o contexto em que foi dito, por vezes fazer orelhas moucas a certas interjeições perfeitamente justificáveis e combater a ofensa deliberada! E podemos sempre ouvir, como resposta à nossa ordem de " Não quero ouvir nas minhas aulas a palavra começada com"F" !" a seguinte exclamação seráfica "quer dizer que não posso chamar o Floriberto?!!!"
Nem me atrevo a continuar indefinidamente o rumo destas cogitações, entrando num âmbito, para mim, mais delicado como são todos os cambiantes criativos e com associações mais ou menos claras sobre as mães ou tias ou quaisquer outros elementos do sexo feminino em interligação com o seu orgão sexual! Caragos ma foscam (eu sei, eu sei, não liga bem mas sinto que já estiquei a corda um bom bocado e não sei se o Bom Deus não me castigará por isso!) se vou aborrecer os meus pacientes potenciais leitores com mais indiscretas divagações! Por agora chega, por agora...
Admito, alguns palavrões são muito fortes, mas para mim nada pior do que aquele palavrão começado com o "C" ! Pode-se sempre substituí-lo pelas suas versões mais benignas e sentir parecido efeito: o caraças, o catano, o carago, mais amiude o CARAMBA! A original é uma palavra feia e ressonante, não dá para dizer um "caralho" entre dentes, a segunda e terceiras silabas são demasiado sonoras! E fosca-se, asneira que é asneira tem que ser dita de voz cheia! Mas não por mim que tenho vergonha, até vergonha para o dizer quando estou sozinha e acabei de morder a bochecha com todo o peso de um saco de cimento de 50 kilos em cima e apeteceria tanto dizer "cum caralho!". Esta palavra é muito descritiva, já o "foda-se" é mais vago , um tempo verbal vagamente indistinto que tanto pode ser hoje como nunca e não fala de ninguém em particular! Não ofende ninguém, ao contrário do "vai-te foder", aí a coisa pia mais fino e já parte para o insulto, não é inofensivo é pressupõe sempre agressividade e mau conviver. Ninguém que dê uma topada no pé na quina da porta, diz para esta: "vai-te foder!!"; não tem lógica mas no entanto diz com grande propriedade "foda-se", fica bem, alivia como o caraças, é um desabafo perfeitamente inócuo e de utilidade comprovada até pelos estudos científicos que asseguram a eficácia anestésica de um bom palavrão! Este verbo tem imensas aplicações e consoante a forma e a entoação como é dito assim significará coisas distintas: dizer "estás fodido comigo!" é diferente de dizer "estás fodido!"; no primeiro caso é certo que quem o pronunciou irá às trombas do visado, mais cedo ou mais tarde! Já a segunda frase pode significar isso também mas é mais certo que indique, de uma forma vaga mas igualmente dolorosa, o quando o infeliz está tramado, de uma forma ou outra, dê lá para onde der, sem fuga possível! Aliás, é aqui que os amigos, não sem uma pontinha de sonso prazer nos dizem:" andaste a esconder rendimentos... estás fodido, mais cedo ou mais tarde vais ser caçado pelas finanças" ou então "Ela já te apresentou aos pais?!... estás fodido, não te dou um ano até estares casado!". A expressão "vai-te foder!" é das três a mais ambígua e a menos franca: enquanto a primeira é uma honesta constatação bélica, uma promessa a realizar e a segunda uma afirmação amigável e condescendente, um aviso amigo do que poderá correr mal, a terceira traz um belicismo cobarde: o emissor deixa às mãos do acaso ou ao cuidado de uma entidade superior, que o visado se foda (leia-se, se lixe)! O emissor não quer sujar as mãos, não tem tomates para isso, apenas tem esperança que o segundo sofra pela ofensa cometida. Deixa às mãos do destino a forma como o outro se fode desde que se foda efectivamente!
Outra expressão de toda a beleza semântica é a grandemente utilizada " Que sa foda!"! Não deve haver expressão mais genuinamente portuguesa e que revele toda a postura pró-activa deste povo: "a crise está a dar cabo deste país? que sa foda!, também mais fodidos que isto não podemos ficar!". No fundo exprime de forma simples o carácter optimista (ou acomodado) da alma lusitana! "O mundo está a desabar sobre nós? que sa foda, era uma questão de tempo!" "Perdi a bolsa de estudo? Que sa foda, também não tinha direito a ela, falsifiquei a documentação!" E por aí fora...
Por vezes estas expressões revelam pouca coerência senão vejamos: quando se diz: " estou fodido contigo!" significa que o primeiro está furibundo com o segundo, no entanto dizer "estás fodido comigo!" não significa necessariamente o inverso! Mas, no entanto, se da exclamação cheia de intenções do "estás fodido comigo!" acrescentarmos uma interrogação a medo " estás fodido comigo?!" aí aumenta a coerência porque já se entende que é sempre o sujeito da acção aquele que sofre o agravo em apreço!
Nas minhas aulas, num jogo de futebol ouvir um "Ó caralho, passa a bola!" não é o mesmo que dizer "caralho que já me magoei"; no primeiro caso o caralho é o sujeito ( e portanto, inadmissível), no segundo caso é um desabafo nascido da dor física (e se não admissível, pelo menos compreensível). É preciso sempre procurar o contexto em que foi dito, por vezes fazer orelhas moucas a certas interjeições perfeitamente justificáveis e combater a ofensa deliberada! E podemos sempre ouvir, como resposta à nossa ordem de " Não quero ouvir nas minhas aulas a palavra começada com"F" !" a seguinte exclamação seráfica "quer dizer que não posso chamar o Floriberto?!!!"
Nem me atrevo a continuar indefinidamente o rumo destas cogitações, entrando num âmbito, para mim, mais delicado como são todos os cambiantes criativos e com associações mais ou menos claras sobre as mães ou tias ou quaisquer outros elementos do sexo feminino em interligação com o seu orgão sexual! Caragos ma foscam (eu sei, eu sei, não liga bem mas sinto que já estiquei a corda um bom bocado e não sei se o Bom Deus não me castigará por isso!) se vou aborrecer os meus pacientes potenciais leitores com mais indiscretas divagações! Por agora chega, por agora...
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