terça-feira, 10 de maio de 2016

A lei de Murphy

Conhecem com toda a certeza a Lei de Murphy que diz, de uma forma muito resumida, que aquilo que poderá correr mal, acaba por acontecer, da pior forma e no momento mais inesperado! É uma teoria pessimista mas pelo menos é precavida e permite-nos jogar um pouco com a vida por antecipação! Há sinais no início daquele dia de cão que nos fazem ficar de sentidos em alerta: a topada no dedo grande do pé logo pela manhã quando nos arrastamos da cama para fora, o cafeteira do café que nos queima os dedos e se espalha pelo chão, a nódoa na t-shirt preferida, as chaves do carro que desaparecem quando há dez segundos estavam ali mesmo (descobrem-se no frigorífico, obviamente o local mais  provável). O Murphy era um gajo esperto e eu sou muito sua amiga; sou crente absoluta nessa sua teoria e achando que, em alguma situação da minha vida, a probabilidade do azar me vir fazer uma visita é elevada, pego em mim e enfio-me debaixo da cama e espero que passe!
  
   Todo este preâmbulo para vos dizer que hoje vi o Mitra e o Murphy não me avisou! Nada! Levantei-me  bem disposta, um dia risonho, uma disposição magnífica, a promessa de um dia positivo e revigorante... nada de nuvens ameaçadoras, presságios soturnos ou vibrações negativas!
   Quando digo que vi o Mitra tenho que me corrigir uma vez que foi o Mitra que me viu a mim: quando dei por ele, já ele estava de olhos fixos na minha pessoa! 
   A registar: o supermercado Continente é uma zona de alto risco para contactos indesejados! Fui apanhada completamente desprevenida e dessa forma, incapaz de empreender uma manobra evasiva! Tarde demais até  para voltar a cabeça e assobiar para o lado! Mas Deus foi misericordioso e o Murphy benevolente uma vez que o mitra estava acompanhado. Ainda olhei a nova vitima de relance, em busca de um pedido mudo de socorro; nada li de dramático no seu semblante... ou é presa recente ou a abordagem do mitra refinou-se!
   Após uma saudação rápida mas perfeitamente civilizada e antes que o personagem se entusiasmasse, esgueirei-me de mansinho fitando esperançosamente a porta de saída, tal como um atleta de velocidade fita a linha da meta. Aí chegada, respirei profundamente, o súbito friozinho na espinha dissipou-se com o calor da manhã e os cabelos eriçados na nuca descontraíram-se subitamente! Ainda na zona de perigo, deslizei agilmente até ao carro, meia a andar e meia a correr e pisguei-me enquanto pude! Durante  um minuto gargalhei insanamente, depois acalmei-me e dirigi-me para casa!

   Não vou falar mais no mitra, nem era minha intenção fazê-lo hoje mas precisava deste momento de catarse!

   Escrevo da segurança do meu quarto, as portadas fechadas, em semi-obscuridade, aguardo pacientemente o final do dia, em modo de prevenção! Pedi gentilmente ao Murphy para ficar do lado de fora!

   Já o conheço, é brincalhão quanto baste para me surpreender duas vezes no mesmo dia: para encerrar em beleza um dia em que foi rei, nada como encontrar o..... Outro!





São Longuinho


   Vem esta crónica a propósito de uma conversa que tive ontem, num jantar, no Beira-Mar de São Mateus, sobre a cerimónia do casamento. Uma das minhas amigas convivas casou há pouco tempo, numa cerimónia que, soube ontem, foi muito discreta e elegante. Esta minha amiga é muito minuciosa e perfeccionista e preparou este momento, tão marcante da sua vida, com um cuidado especial. Nada foi deixado ao acaso, tudo foi pensado desde a ementa do jantar ao pormenor das fitinhas que adornaram os bancos da igreja. A certa altura falou-se dos imponderáveis, aquelas situações que acontecem quando não era suposto acontecerem mas que dão sempre o colorido ao momento e que ficam na memória muito mais do que aquilo que correu bem!

 Lembrei-me do meu casamento! Lembrei-me da cerimónia do meu casamento! Anteriormente pensado  para ser realizado na Terceira, no dia 1 de Setembro de 1991 na Igreja de São Pedro e posterior banquete no espaço reservado do Clube de Ténis, tudo já preparado nesse sentido, acabou por ser muito, mas muito diferente. Não estava destinado que fosse nesse dia. De tal forma, as ondas electromagnéticas ou o que é que seja estavam desalinhadas que seria impossível que acontecesse. Veja-se: recebi uns tempos antes um telefonema de uma rapariga, que iria casar no mesmo dia e que cobiçava o espaço onde iríamos dar o banquete e vai daí, sendo uma rapariga de fartos recursos e lata proporcional telefona-me a perguntar se seria muito irrazoável pedir-me para eu alterar o dia do meu casamento ou quanto muito mudar o local das comezainas. Já não me lembro o que respondi mas estou certa que o que quer que seja que lhe disse não a deixou satisfeita e andou a fazer rezas ou o diabo e a coisa deve ter tido uma pequena interferência junto dos equilíbrios cósmicos que gerem as vidas de todos nós. Entretanto, com ou sem ajuda de terceiros, o meu pai para grande tristeza nossa, morreu no dia 18 de Julho desse ano e ninguém estava com cabeça para festas! A minha mãe ficou inconsolável e eu não poderia pensar em manter o ritual do casório nos mesmos moldes; assim, naturalmente, cancelou-se tudo e chorou-se a ausência do meu pai! Foi o ano em que fiquei colocada pela primeira vez na Lousã, o ano em que eu e o meu namorado tinhamos decidido ir viver para essa vila, perto de Coimbra. Voltou a marcar-se nova data de casamento, desta feita para 11 de Outubro numa cerimónia civil na Conservatória de Almada. Feitos os convites, descobriu-se que, estariam presentes 13 pessoas; a minha mãe foi inflexivel, não sairia de casa para ir ao casamento se à mesa se sentassem 13 pessoas; em desespero de causa, uma amiga nossa,  à última da hora, trouxe um amigo, o verdadeiro penetra, um rapaz que nem eu nem o noivo conheciamos, mas caramba, não era altura para esquisitices! Não tivesse este "amigo" aparecido provavelmente iriamos dar um almoço de borla ao primeiro cabeludo indigente que nos aparecesse! Estavamos por tudo! Quanto ao "amigo" nunca mais o vi, mas prestou-nos um bom serviço!
    A senhora conservadora, talvez intuindo que, aquele casamento não se enquadrava nos padrões normais, apareceu muito desleixada,gordissima,   bamboleando-se afogueada e de chinelos a arrastar pelo chão. A sala reservada para o efeito era feia e repleta daqueles inefáveis quadros do menino com a lágrima a deslizar pelo rosto e sucedâneos!
   O almoço (açorda de marisco e bifinhos com cogumenlos) foi no Barbas da Costa da Caparica, que tem tudo a ver com o requinte e sofisticação do Laws Club Tennis!!! A própria ementa foi adequada ao requinte da ocasião.
   O fotógrafo fomos todos nós, fotografia de conjunto não houve, seriam 13 a posar já que o 14º teria que ser o fotógrafo e a minha mãe não permitiria; tal como não tiramos aquelas fotos tão artisticas dos noivos a cortarem o bolo, dos noivos a entrelaçarem os braços para o champanhe, dos noivos a beijarem-se... o padrinho fez a filmagem do casamento mas nunca ninguém chegou a ver a filmagem porque o padrinho nunca chegou a dar-nos a cassete, daquelas cassetes pequeninas... dúvido que saíba onde ela pára, se é que ainda existe!
   A lua de mel não existiu no tradicional sentido do termo! Não saímos de malas para lado nenhum, não apanhamos nenhum avião ou nenhum barco, a nossa suite de recém-casados foi o quarto dos pais do padrinho (sem os pais lá dentro, claro está!). Dessa parte da história já nem me lembro muito bem, sei que foi assim mesmo mas não sei porquê! Também sei que, biblicamente, o esposo não conheceu a esposa nessa noite porque tinha andado nos copos na véspera e estava para lá de moribundo! 
   Deixando o melhor para o fim, pouco antes de sairmos para a Conservatoria a minha mãe vem ter comigo desesperada, dizendo que perdeu a aliança de casamento, mais uma vez, "não saio de casa sem a aliança". Tudo na vida dela foram sinais, premonições, sensações, vibrações boas ou más! A Inês, a minha madrinha, veio em minha salvação: tendo vivido muitos anos no Brasil, conhecia uma reza de apelo ao Santo São Longuinho, crença popular muito enraizada que atribuia a este santo a capacidade de encontrar objectos perdidos. Assim, disse a Inês, é preciso dizer uma reza e tenho a certeza que se descobrirá a aliança!

São Longuinho, São Longuinho,
se eu achar (nome do objecto perdido)
dou três pulinhos e três gritinhos!

e assim foi, a minha mãe que naqueles dias de poucas alegrias andava a chorar pelos cantos foi convencida a dizer esta reza e foi, no minimo, bizarro, vê-la  a gritar e a pular na esperança de encontrar a sua aliança! E encontrou...10 minutos depois enrolada nas franjas da sua colcha de cama! Por essa altura, toda a emoção, o nervosismo, a tristeza imensa daquelas semanas desmoronou-se e começou toda a gente a rir descaradamente, de uma forma quase demente, misturada com lágrimas e beijos e abraços à salvadora Inês e ao São Longuinho, obviamente! Este tornou-se nosso amigo, e ainda hoje o evocamos quando necessitamos dos seus valiosos préstimos, certos de sermos prontamente atendidos.

O aldrabão com gosto em o ser

Outra sub-espécie interessante da fauna onde o ser humano se move é o aldrabão por convicção: distingue-se do aldrabão simples porquanto tudo  o que faz ou fará será conseguido a poder de esquemas e jogadas, no intuito do proveito rápido à custa de terceiros; enquanto o aldrabão simples aldraba se a oportunidade flagrante se escarrancha desavergonhadamente à sua frente (e quantos de nós não fomos já tentados por esses pequenos momentos de subversidade e quantos de nós a isso tentados não sucumbimos ante a possibilidade da transgressão?!),  os aldrabões convictos procuram a aldrabice como objectivo primeiro; dão-se bem em profissões de contacto físico directo com o outro  porque gostam da aldrabice personalizada, o trato olho no olho, a manha do engano no diálogo com o cliente; são pessoas extrovertidas, alegres e bem falantes; movem-se em negócios de pequena envergadura porque lhes falta a inteligência e o engenho para darem o salto para voos mais altos; normalmente vão criando anti-corpos junto dos clientes aldrabados, mas imunes a isso vão percorrendo o seu caminho na senda do pequeno embuste, como se a isso sejam compelidos inexoravelmente: é quase uma doença, uma necessidade física absoluta, uma  propensão premente para o logro! É por inerência um mentiroso compulsivo, mente com quantos dentes tem na boca e fá-lo sempre com um grande sorriso porque vive feliz na mentira!Procure-se o bom aldrabão, numa multidão de gente: será sempre aquele que diz que fez e aconteceu, o gabarolas pedante  cheio de referências cagonas, não poucas vezes de apelido vagamente sonante, de muitos pronomes e nomes, da língua materna ou nem por isso; acrescenta-se a tudo isto algumas, certas, relações de amizade, muito show of  e alguma pelintrice entre paredes, muito mas muito verniz velho prestes a estalar e completa-se o retrato! 

O lambe-botas

Hoje apetece-me falar de lambe-botas, ou a sua versão hard-core, os lambe-cus! Já que estou numa fase de adesão plena ao palavrão porque, olha, porque me apetece, nada melhor do que iniciar um pequeno solilóquio a propósito daqueles seres, sub-espécie do ser humano, digamos que uma versão imperfeita do ser humano, o que no final da cadeia de produção sofreu uma avaria na máquina, aquela que o dotaria da verdadeira espinha vertebral, a que define o ser humano naquilo que tem de mais nobre, o seu carácter! Os lambe-cus, na sua essência, não são lideres, falta-lhes garra para isso, os lambe-cus seguem o líder, qualquer que seja! Os lambe-cus não juram fidelidade a ninguém, só são fieis aos seus interesses e conseguem, no intento dos seus propósitos fazer qualquer coisa, por mais indigna que seja! Os lambe-cus não têm ideologias, a ideologia que seguem é a ideologia do que manda no momento! São subservientes com os seus superiores hierárquicos e arrogantes para com aqueles que já os toparam! Nada humildes para com estes, não aceitam criticas e muitas vezes se ofendem com a critica assertiva! Ficam fora de si e têm comportamentos de prima-donna! Raramente têm sentido de humor, conseguem o facto extraordinário de não acharem graça à piada genuína, normalmente são os mais carrancudos do grupo de trabalho com excepção quando o seu deus (leia-se, o seu chefe) abre a boca: aí são  encantadores, tornam-se intuitivos e rápidos nas suas piadas, fazem-nos por vezes pensar se estaremos a ser demasiado duros para com eles! Os lambe-cus são essencialmente burros, porque não sabem ser discretos nas suas intenções e são topados a léguas por quem tem um palmo de testa, contradizem-se frequentemente, não conseguem sustentar uma discussão sem invariavelmente, num momento ou outro, confundirem discussão profissional com questões pessoais; não são convictos nas suas ideias, ideologias já se  viu que não têm! São os melhores amigos de quem manda, antecipam-se nos seus desejos. São burocráticos e maçadores, lambem as feridas do chefe nas discussões com os outros, bichanam ao ouvido a sua solidariedade e destilam o seu desprezo às falhas dos outros, é o seu aliado primeiro, até achar que  lhe serve os seus intentos; quando deixa de servir, passa a ser mais outro, esquece-o como amigo e alia-se, sem pudor ao novo chefe! Estão em franco desenvolvimento porque  onde há um lambe-cú existe sempre alguém a gostar que lhe lambam o cu e, como tal, o mercado sustenta-se a si próprio!

O palavrão

O palavrão! Nunca me adaptei muito bem ao palavrão,  a vontade de o utilizar é grande principalmente pelas suas qualidades profilácticas e de combate à dor, mas a minha educação católica e conservadora sempre me refreou! Ultimamente tenho uma relação mais descontraída com ele e  uso-o  de uma forma menos complexada! 
   Se há muitos anos atrás me atrevia a dizer  a palavra "porra", ficava sempre com alguns complexos de culpa porque menina que é correcta não diz asneira, mas rapidamente me socorria do argumento " porra não é asneira, vai ver ao dicionário, PORRA!" Era a única que sabia que podia dizer sem estar a ser completamente subversiva, já todas as outras que ouvia, ditas normalmente pelos rapazes, soavam-me cruas e proibidas!
   A minha mãe que sempre nos educou na certeza que o palavrão era indigno de uma mulher, quando eu e a minha irmã crescemos e começamos a dar-lhe cabo da paciência com as nossas dúvidas existenciais juvenis começou a utilizar o "merda" quando sentia que a discussão conosco não iria ter um final satisfatório para o seu lado. Por esse motivo, esta palavra começou a frequentar-nos em algumas ocasiões. Se repreendia a minha mãe, esta dizia " merda não é asneira!" Era a única ocasião em que a minha mãe mentia deliberdamente, que eu sabia que aquela palavra não se dizia! Tinha  consciência que ela a dizia porque se sentia por vezes frustrada e quando a lógica e a sensatez não resultavam, uma boa asneirada resolvia a situação À conta disso comecei também a encerrar algumas refregas com ela com um rotundo "merda", circunstância que a deixava profundamente ofendida; inútil dizer-lhe que não estava propriamente a manda-la à merda, era só um desabafo que não visava ofendê-la! Pois sim, dizer, "Ó mãe merda!" não é muito diferente de dizer "Ó mãe, vá à merda!" mas para mim fazia toda a diferença! Engraçado como as coisas são, hoje sou eu que, derrotada e frustrada encerro algumas disputas verbais com os meus filhos com o consolador "Merda!". Que raio de exemplo estou eu a dar aos meus filhos?! pergunto-me de mim para comigo, alguns pruridos pedagógicos que rapidamente enxoto do meu pensamento, que diabo, sabe bem, fonix! É só uma reacção momentânea, de utilização S.O.S quando mais nada resulta! Não deve ser, de jeito algum, utilizada de forma rotineira porque perde o seu impacto! O espanto no rosto dos meus jovens é genuino quando lhes espeto esta enormidade pelas suas orelhas a dentro! Tem eficácia porque, não se espera que a mãe, a sua própria mãe lhes dirija nestes modos para mais sabendo eles que a mãe não diz palavrões! Este "merda" significa tão só "encerrou a conversa, a minha paciência convosco está no limite, façam-se invisíveis!"  Uma prima minha, contou-me esta história deliciosa: há alguns anos atrás vivia perto de uma amiga que tinha tido um bébé há pouco tempo e que como todos os bébés, este chorava e como todas as recém-mamãs esta também andava cansada e desesperada com os permanentes caprichos do pequeno ser. Um dia, da varanda da sua casa e depois de ter ouvido o seu bébé chorar tempos sem fim, ouviu a minha prima a resposta da sua cansada mãe "Vai à merda, bébé, vai à merda!". Duvido que tenha tido algum efeito na tenra criança mas sem dúvida que para a mãe foi aliviante! 

    Admito, alguns palavrões são muito fortes,  mas para mim nada pior do que aquele palavrão começado com o "C" ! Pode-se sempre substituí-lo pelas suas versões mais benignas e sentir parecido efeito: o caraças, o catano, o carago, mais amiude o CARAMBA! A original é uma palavra feia e ressonante, não dá para dizer um "caralho" entre dentes, a segunda e terceiras silabas são demasiado sonoras! E fosca-se, asneira que é asneira tem que ser dita de voz cheia! Mas não por mim que tenho vergonha, até vergonha para o dizer quando estou sozinha e acabei de morder a bochecha com todo o peso de um saco de cimento de 50 kilos em cima e apeteceria tanto dizer "cum caralho!". Esta palavra é muito descritiva,  já o "foda-se" é mais vago , um tempo verbal vagamente indistinto que tanto pode ser hoje como nunca e não fala de ninguém em particular! Não ofende ninguém, ao contrário do "vai-te foder", aí a coisa pia mais fino e já parte para o insulto, não é inofensivo é pressupõe sempre agressividade e mau conviver. Ninguém que dê uma topada no pé na quina da porta, diz para esta: "vai-te foder!!"; não tem lógica mas no entanto diz com grande propriedade "foda-se", fica bem, alivia como o caraças, é um desabafo perfeitamente inócuo e de utilidade comprovada até pelos estudos científicos que asseguram  a eficácia anestésica de um bom palavrão! Este verbo tem imensas aplicações e consoante a forma e a entoação como é dito assim significará coisas distintas: dizer "estás fodido comigo!" é diferente de dizer "estás fodido!"; no primeiro caso é certo que quem o pronunciou irá às trombas do visado, mais cedo ou mais tarde! Já a segunda frase pode significar isso também mas é mais certo que indique, de uma forma vaga mas igualmente dolorosa, o quando o infeliz está tramado, de uma forma ou outra, dê lá para onde der, sem fuga possível! Aliás, é aqui que os  amigos, não sem uma pontinha de  sonso prazer nos dizem:" andaste a esconder rendimentos... estás fodido, mais cedo ou mais tarde vais ser caçado pelas finanças" ou então "Ela já te apresentou aos pais?!... estás fodido, não te dou um ano até estares casado!". A expressão "vai-te foder!" é das três a mais ambígua e a menos franca: enquanto a primeira é uma honesta constatação bélica, uma promessa a realizar e a segunda uma afirmação amigável e condescendente, um aviso amigo do que poderá correr mal,  a terceira traz um belicismo cobarde: o emissor deixa às mãos do acaso ou ao cuidado de uma entidade superior, que o visado se foda (leia-se, se lixe)! O emissor não quer sujar as mãos, não tem tomates para isso, apenas tem esperança que o segundo sofra pela ofensa cometida. Deixa às mãos do destino a forma como o outro se fode desde que se foda efectivamente!
   Outra expressão de toda a beleza semântica é a grandemente utilizada " Que sa foda!"! Não deve haver expressão mais genuinamente portuguesa e que revele toda a postura pró-activa deste povo: "a crise está a dar cabo deste país? que sa foda!, também mais fodidos que isto não podemos ficar!". No fundo exprime de forma simples o carácter optimista (ou acomodado) da alma lusitana! "O mundo está a desabar sobre nós? que sa foda, era uma questão de tempo!" "Perdi a bolsa de estudo? Que sa foda, também não tinha direito a ela, falsifiquei a documentação!" E por aí fora...
   Por vezes estas expressões revelam pouca coerência senão vejamos: quando se diz: " estou fodido contigo!" significa que o primeiro está furibundo com o segundo, no entanto dizer "estás fodido comigo!" não significa necessariamente o inverso! Mas, no entanto, se da exclamação cheia de intenções do "estás fodido comigo!" acrescentarmos uma interrogação a medo " estás fodido comigo?!" aí aumenta a coerência porque já se entende que é sempre o sujeito da acção aquele que sofre o agravo em apreço!
   Nas minhas aulas, num jogo de futebol ouvir um "Ó caralho, passa a bola!" não é o mesmo que dizer "caralho que já me magoei"; no primeiro caso o caralho é o sujeito ( e portanto, inadmissível), no segundo caso é um desabafo nascido da dor física (e se não admissível, pelo menos compreensível). É preciso sempre procurar o contexto em que foi dito, por vezes fazer orelhas moucas a certas interjeições perfeitamente justificáveis e combater a ofensa deliberada! E podemos sempre ouvir, como resposta à nossa ordem de " Não quero ouvir nas minhas aulas a palavra começada com"F" !" a seguinte exclamação seráfica "quer dizer que não posso chamar o Floriberto?!!!"

    Nem me atrevo a continuar indefinidamente o rumo destas cogitações, entrando num âmbito, para mim, mais delicado como são todos os cambiantes criativos e com associações mais ou menos claras sobre as mães ou tias ou quaisquer outros elementos do sexo feminino em interligação com  o seu orgão sexual! Caragos ma foscam (eu sei, eu sei, não liga bem mas  sinto que já estiquei a corda um bom bocado e não sei se o Bom Deus não me castigará por isso!)  se vou aborrecer os meus pacientes potenciais leitores com mais indiscretas divagações! Por agora chega, por agora...
   

   

Rebeldia

Quando tomei consciência de que o mundo não era um lugar sempre seguro, bom, prazeroso, foi-me dito pela minha mãe, com sofrimento na voz e no tom que se usa para falar das coisas de que se sente uma falta dolorosa, que existira um irmão que morrera e que a dor sentida, permanecia e sempre a acompanharia até à sua morte. O nosso irmão vivia nas fotografias da sala e do quarto dos meus pais, por vezes vestido com a farda da mocidade portuguesa, a que não pertencia mas que, segundo a minha mãe, eram obrigados a ter. Não pertencia ao movimento, dizia a minha mãe mas o certo é que a imagem que guardo dele é com ela vestida, todo prezado, um pequeno soldado pronto para a luta. 
Num canto do seu guarda-fatos a minha mãe guardava, religiosamente, os seus livros e os cadernos da escola e todos os desenhos e postais de dias da mãe e do pai, onde escrevia o quanto os amava, postais sempre acompanhados de uma imagem da Nossa Senhora ou de São José, tão bem ao gosto do catolicismo conservador do Estado Novo. Guardava também alguma roupa, não muita, o vestidinho do batizado e recordo que, da farda da Mocidade Portuguesa restava só o cinto, em couro e com um S desenhado na fivela. Pequena que era nunca me questionei sobre o significado do S do cinto, para mim poderia ser um S como um C ou um K. Não me dizia nada. Regressada a Almada pouco depois da revolução de 1974, vindos de Moçambique vivíamos a comoção desses tempos, um tempo de esperança e novos começos. Eu sentia o frenesim, a discussão indecifrável de política dos adultos, cantava " Uma gaivota voava, voava", canção que repetia até à exaustão e habituara-me a trautear o hino do Movimento das Forças Armadas que me parecia heróico. Tinha 7 anos mas recordo imagens, sons, a televisão a preto e branco com as notícias frenéticas, entusiasmadas dos repórteres. Sabia que algo de muito solene tinha acontecido e recordo ter decidido, desde logo que pertencia ao Partido Comunista. Não sei porque tomei essa decisão mas pareceu-me que, por aquela altura, e do que tinha decifrado da linguagem dos adultos, eram eles os bons. Do General Ramalho Eanes recordo um personagem austero e lembro-me de pensar que aqueles óculos de massa escuros e excessivamente grossos, me causavam algum respeito. O homem não sorria mas o momento não era para risotas, intuía eu. Também gostava do camarada Vasco Gonçalves e do  Pinheiro de Azevedo, não porque percebesse algo do que diziam mas porque me parecia estarem também do lado dos bons.
Anos mais tarde, vinda de uma estadia de 5 anos na Terceira, em plena fase rebelde, numa das incursões ao sótão, onde encontrava sempre tralha interessante, volto a descobrir o cinto, guardado com outros objectos do passado. Decido usar o cinto que pertencia ao meu irmão, porque tinha sido dele e porque era giro. Era a época dos vestidos indianos com as malas de cabedal compradas numa ruela de Almada, malas que escureciam com o tempo. Era o tempo das missangas e dos sapatos mocassins, aquele cinto tinha tudo a ver, de couro curtido, muito hippie, achava eu, o S desenhado continuava indecifrável para mim; e era assim, adolescente, que ia vender tralha à feira da ladra. Alguns anos mais tarde, já depois dos meus gostos estéticos terem mudado, vendo de novo o cinto e olhando com olhos de quem já reflecte com cabeça de adulto, não necessariamente melhor, percebi o S e dei conta do pecado cometido. Mas logo ali, sem culpas me absolvi.  O cinto por lá permanece, no sótão, rodeado de tralha do passado.


Filhos e pais

Filhos e pais
Os filhos aparecem e desassossegam-nos para sempre. Trazem primeiro a pequenez e a fragilidade e permitem que nos apaixonemos, irremediavelmente, para o resto das nossas vidas; seguem depois com a descoberta do mundo e a devoção aos seres a quem acharam por bem acolher como pais, a quem recorrem e para quem correm sempre, na procura do seu colo e do calor do seu corpo onde se aninham na única segurança em que confiam, fazendo-nos pensar como somos importantes, como existimos para além da nossa condição humana, como evoluímos para uma condição superior, de pais; descobrem-se como seres individuais e percebem que os pais, afinal,  não são o centro de tudo, enviesados no equilíbrio do mundo em que vivem e, é por essa altura que começa tudo a descambar, primeiro devagarinho em cambiantes discretos e depois à descarada; quando entram na adolescência, percebem que os pais  não são nada daquilo que andaram anos a apregoar e que existem para os envergonhar; passam a fase, passageira,  do conservadorismo marreta com os pais a servirem de saco de pancada! É  deles recriminações do tipo " comporta-te, já viste a idade que tens?!" ou " não percebo o que a vida te ensinou porque com os anos que tens parece que não aprendeste nada!" Tentam, a todo o custo, não serem associados com semelhante tipo de pessoas, os pais; estes só lhes causam constrangimento e embaraço e em público não sabem comportar-se. No entanto, toleram-se porque são o sustento das suas vidas e acreditam que, com os seus constantes ensinamentos, irão aprender, pelo menos, a comportarem-se quando em presença dos amigos dos filhos. Os pais há muito que perderam a importância central no mundo que os rege, os amigos são a referência primeira e destes querem o agrado, o apoio, a aceitação. As confidências que se reservavam aos pais dão-se agora aos amigos, os pais tentam em investidas mais ou menos desajeitadas mas a resposta é "não te metas nisso! "  ou " sabes, o mundo que era o teu já evoluiu, actualiza-te".  Do ponto de vista dos filhos, crescer não é fácil e os pais não ajudam, muitas vezes trapalhões, incoerentes como poucos; primeiro, fazem experimentações pedagógicas: se os filhos são pequeninos as receitas que se conhecem para educá-los são simples e normalmente dão resultado; à medida que os miúdos pensam e tornam-se críticos a frase " Obedeces, porque sim! " já não faz sentido porque a esta frase segue-se outra " Obedeço-te porque sim, porquê?! Já viste que treta de argumentação é essa?". Uma coisa é educar crianças pequenas, está tudo escrito e vai funcionando, com  adolescentes e adultos jovens a empreitada é muito mais complicada; os jovens gostam de argumentar e de tal forma o fazem que, na dialéctica entre pais e filhos, os primeiros desistem por cansaço e falta de prática; coisa que os filhos sabem é discutir e nada melhor para eles que discutir com os pais, skill que nasce e cresce com eles e que se reserva para quando chega a altura e nessas ocasiões, eles brilham! Se nenhuma das experimentações pedagógicas utilizadas funcionam, a chantagem emocional paterna é usada em desespero. Em jovens batidos e já avisados, tais estratégias  não surtem efeito para além das frases de censura " Isso, faz-te de vítima, fica-te muito bem!". Quando por fim, a tão utilizada " Encerrou a conversa!" surge, os filhos argumentam e bem, que é impossível discutir como gente crescida se os pais se arrogam da sua condição autoritária latente para impor algo que deveria ser resolvido pelo diálogo. Uma canseira!


Cenas de homem...

Cena deprimente número 1: 

   Uma festa, com potencialidade para ser uma grande festa, música boa, uma playlist ( como se diz agora) susceptível de agradar a todos, se não em todas as músicas, em grande parte delas e o que acontece depois? Tirando dois ou três homens esforçados, homens sedutores que dançam no meio delas, homens que as agarram e as conduzem, os outros, desaparecem para as comuns trivialidades, fumar e beber e embrutecerem-se ainda mais. Elas, lindas e disponíveis para uma das artes mais bonitas e antigas de sedução e que, contrariamente a muitas outras, não produz um aumento significativo de casos extra-conjugais, eles, amorfos e especialmente burros, incapazes de perceber quanto uma dança é sedutora e aproxima. Há acaso maior demonstração de virilidade, um homem que nos leve para dançar, dançar a sério, agarrar em nós, manobrar-nos e arrebatar-nos com poder másculo, conduzir-nos em todos os passos e em todas as direcções?  Pergunta-se a qualquer uma de nós o que pensa sobre este assunto, duvido que haja alguma que discorde com o que digo! E no entanto, aquelas abéculas, não se aproximam! É tão triste! Tenho saudades dos slows dos anos oitenta, aquelas festas de garagem, as matinés da Twins onde toda a graça residia naqueles momentos, onde elas e eles se juntavam em abraços mais ou menos tímidos, onde os corpos estremeciam de puro prazer, sem grande sofisticação nem complexidade mas onde o homem era homem e dançava com uma mulher. E antes disso, nas sociedades onde eles sabiam dançar, chamavam uma mulher, iam buscá-la, conduziam-na e sabiam o que faziam. Hoje em dia consigo de repente pensar em dois homens que sabem  e gostam de dançar e curiosamente são os dois gays! 

Cena deprimente número 2: 

   Não sei quando começou: provavelmente quando andavam a tratar dos papeis para o casamento e ouviram as palavras: esposa e esposo! Que bonitas que são! Quase tão perfeitas quanto "esponsais"! Devem ter gostado, soaram-lhe a sofisticação e agora à conta disso anda por aí, disperso, mas assustadoramente próximo, um bando de coninhas que insiste em tratar as suas mulheres por esposas. Se estou junto de gente e há uma aventesma que cai na asneira de utilizar tal tratamento, peço desculpa e vou à casa de banho refrescar a cara a ver se me passam as náuseas. Ó toleirão, acaso a tua mulher te trata por "esposo"? Não sabes, ó meu grande cagão provinciano que, se não podes tratar a tua gaja por "marida" por oposição ao masculino, a deverás tratar por "mulher"? É isso que ela é, a tua MULHER! 
   Um homem a tratar a sua mulher por esposa faz-me lembrar aqueles grandes figurões do velho testamento que coleccionavam as mulheres para procriação, para povoarem a terra. Mas esses até tinham desculpa, vamos lá, uma tarefa hercúlea ou porventura messiânica e tinham que trabalhar depressa e em quantidade. As esposas, que normalmente eram mais do que uma serviam para isso mesmo, servi-lo. Entretanto, milhares de anos se passaram, mulher tens uma só, (legalmente falando),  aquela a quem levas para a cama porque a desejas e porque queres que seja a única,  a tua companheira, a mãe dos teus filhos. Deixa de ser murcão e quereres fazer bonito, armado em cócó! Fala simples, trata-a por mulher porque é isso que ela é, em todas as suas dimensões, mas primeiro e mais que tudo MULHER, a tua!  E há coisa mais bonita que ouvir uma mulher tratar o seu marido, por " o meu HOMEM"? 



   

cenas de mulher...

Uma verdade que ninguém pode desmentir: nem toda a gente tem pés bonitos! Segunda verdade: muita mulher bonita tem pés feios em parte por andar sempre com eles enfiados em sapatos apertados e altos; Com estes dois pressupostos pergunto: porque raio mulheres bonitas  pintam unhas dos pés feios, se se pretende realçar o que se tem de mais bonito, se os pés são feios porque pintá-los para chamar mais a atenção sobre eles? Quantos dedos encarquilhados, torcidos e encavalitados em cima uns dos outros não se vêm com as suas unhas pintadas de vermelho garrido? Porque razão as mulheres quase sempre pintam as unhas dos pés de vermelho mesmo que o não façam com as unhas das mãos? Acaso julgarão sensuais, interessantes, esteticamente elegantes 5cm2 de unha, alinhados em montes de 5 vezes dois pés, em dedos nodosos, retortos, desproporcionais, por vezes? Terceira questão, as mulheres feias com pés bonitos não ganham nada em os mostrar porque ninguém, depois de olhar para cima irá olhar para baixo, pelo menos tão para baixo, tenho para mim que pararão algures ali a meio caminho, pelo que os pés não constituem motivo de desempate. Só aprecia verdadeiramente  pés uma faixa muito reduzida de pessoas com tara por pés e mesmo esses, particularmente esses são muito exigentes quanto aos pés que observam;
   3 - Sobrancelhas ultra depiladas à moda dos anos setenta. Lembro-me sempre da Ana Zannati com as suas micro-sobrancelhas por cima dos seus olhos esbugalhados e em risco de saírem das órbitas, a imagem das sobrancelhas é recorrente. Que mal faz uma penugem decente num arco normalmente bonito como têm todas as mulheres? Porquê transformá-las e torná-las feias? Que raio de noção estética é esta que faz que mulheres novas e  bonitas pareçam as avós que desenham as sobrancelhas em lápis castanho e que ficam com ar de bonecas, frias e artificiais?
   4- Cuecas fio dental - como se sujeita uma mulher a tal instrumento de tortura? Para não ter marca da cueca tradicional? Não usa nenhuma e resolve-se o problema. Como aguentar ter um pedaço de tecido, normalmente exíguo que nenhuma utilidade tem a não ser dizer que se usa roupa interior, enfiado no rabo e não poder ter a lata do Rafael Nadal que entre jogadas desentala as cuecas das suas musculadas bordas do rabo? É que com cuecas fio dental por mais que se desentale é tempo perdido, é para lá que elas voltam novamente. É de todas as peças de roupa femininas ( há homens que também gostam de as usar) aquela que acho mais inutil, serve para nada, não tapa nada, é só para fazer sofrer, andar uma tarde ou uma noite inteira com tecido enfiado no rabo não é para mim, pronto. Certas estão aquelas que não trazem nada por baixo, por vezes e inadvertidamente se deixam apanhar, não são como as falsas puritanas que querem o mesmo efeito sem se deixarem comprometer seriamente! Eu cá gosto da cuequinha tradicional, não precisa de ter o tamanho das da minha mãe, só o tamanho certo para alcançar a porção de rabo que me coube em sorte, com marca ou sem ela.
   5 - Sapatos de saltos altos para quem não sabe andar em cima deles. É confrangedor ver uma mulher que não domina as alturas de uns saltos estupidamente altos insistir em equilibrar-se em cima deles, no entanto, há tantas que o fazem e com resultados tão devastadores!!! Não anda em cima de saltos altos quem quer mas quem pode e nem todas podem ou pelo menos não sabem; algumas é como se estejam com os pés cheios de bolhas e  em ferida, outras nota-se que pensam para andar, ora andar é natural, pensa-se tanto para andar como se pensa para respirar, no caso de algumas é mesmo...vamos lá, um pezinho à frente do outro; convenhamos que se se consegue andar nas ruas de Angra com as calçadas incertas e tremendamente mal engendradas consegue-se andar em cima de um arame, no entanto não é a melhor cidade para se aprender e para se aprender é preciso tempo e pratica e já agora talento; tenho um amigo homem que anda em cima de uns sapatos altos melhor que a maior parte das mulheres que conheço incluindo eu e não me parece que ande todos os dias a praticar; é algo inato, não é para todas, apesar dos que elas possam pensar. É injusto é certo mas a vida é injusta e há certamente umas injustiças bem maiores do que outras.

Respira e espera que passe..

Há momentos na vida em que, dê lá por onde der, façamos o que fizermos, no final, tudo correrá mal; no final, ou no principio ou mesmo no meio; por vezes é um dia desses, outras vezes são vários dias, juntinhos uns aos outros e de tal forma desastrosos que a sensação suprema é de que o mundo não gosta de nós, a entidade que nos regula seja lá ela qual for, as pessoas, todos os seres animados e inanimados que se movem à nossa volta, nos olham indiferentes ou em conluio face à nossa desgraça. Esses dias desgraçados de todo e não há um presságio que os previna e mesmo que haja, uma ténue sensação de algo diferente, estranho, um desconforto, nunca vamos a tempo, tudo corre mal numa sucessão vertiginosa no sentido único de sempre correr mal. Não há coisas que correm assim assim nem coisas que tendencialmente parecem que se encaminham para o bem correr, é tudo no mau sentido a caminho acelerado para o catastrófico. E nós a vemos a sucessão de episódios e não termos o poder para inverter a tendência. Os episódios podem variar da gravidade máxima de acidentes diversos em risco da nossa integridade física, é o tempo em que te cortas e por vezes duas vezes no mesmo sitio, o tempo em que inicias as topadas consecutivas nos dedos dos pés, em que roças coxas e braços quase a saírem lascas de carne, nas chaves hirtas dos armários, em que trincas dedos mesmo nas pontinhas que é onde dói mais,  nas juntas das portas, em que te levantas de ir buscar um tacho aos armários de baixo e  traulitas a cabeça na porta do armário de cima na altura e medida exatas em que a mola que já não funciona bem deixou de funcionar de todo, a fim de te deixar um lanho no escalpe com o embate num ângulo estranho para doer mais, de tal forma que não consegues evitar que te saltem as lágrimas dos olhos… até às vergonhas várias, de  teres que descalçar os sapatos e verificares, tu e o centro de saúde inteiro que calçaste com a pressa duas meias diferentes, em textura e cor e por vezes em tamanho, porque na escuridão do teu armário, depois de não teres acendido a luz porque não estava ali à mão e quiseste abreviar caminho e  teres, entretanto, batido com a testa na quina da porta do roupeiro- típico -, agarraste o monte que estava mais perto e o preto pareceu-te azul e vice-versa e na claridade do centro de saúde, o azul é azul e o preto é preto, não há que enganar ou de te aperceberes que, a nódoa de café que fizeste de manhã na tua única t-shirt branca, na vez primeira, em décadas, em que derramaste café em cima de ti e logo tinhas que vir de branco, te faz passar por desmazelada quando, na verdade, até dominas bem todos os procedimentos de levar comida e bebida à boca sem que pareças padecer do mal de Parkinson. Episódios em que não respiras de um para outro, ainda te tentas recuperar do anterior e já te sucede o seguinte: por exemplo, recebes a notícia logo pela manhã que alguém que te é próximo e que deveria ser o teu apoio porque sim, te falhou mais uma vez e que nesse detalhe se jogam alguns dias seguintes na tua vida em que ela, inevitavelmente, se complicará (episódio de gravidade máxima, portanto); respiras fundo depois de sentires a fúria subir, descer e acalmar, levantas-te da cama já sem vontade alguma e dás com o puto mais pequeno a chorar pelos cantos; enches-te de paciência e perguntas o que sucedeu, continua a chorar como se o mundo tivesse terminado ali e não te responde e tu que já tens a paciência penosamente massacrada insistes para que te conte, já alarmada não seja coisa grave; mostra-te que acabou de partir o vidro de um quadro que gostas; suspiras quase bufando naquele desalento de quem sabe que, quando na casa se começam a partir coisas, normalmente se continuam a partir coisas durante uma semana, e podes usar luvas antiderrapantes e acender velinhas a esconjurar más vibrações na casa  que, algo cairá, cairá e partir-se-à  por mais malabarismos que faças antes que chegue ao chão; antes de ontem foi um prato (episódio sem gravidade alguma), no dia seguinte o telemóvel ganhou vida própria e saltou-me das mãos, caindo, lá está, de outra forma não poderia ser, não teria a mesma graça, com o vidro para baixo, em centésimos de segundo artisticamente feito em pedacinhos tenuemente mantidos no lugar pelo que funciona; retens a vontade louca de o agarrares e de acabares com ele de vez, fúria passageira que dominas, no fim de contas já és batida neste tipo de coisas, ganhaste um domínio sobre a adversidade; hoje foi o quadro, amanhã quem sabe, outro pneu do carro, afinal de contas posso contar com uma certa persistência na forma como os pneus do meu carro se furam: não porque ande a passar por cima de coisas estranhas ou a trilhar rodas em passeios, sei simplesmente que neste carro, os pneus têm uma lógica de tempo de vida que me ultrapassa. Um pouco como a lógica do tempo em que os telemóveis na minha mão se mantêm intactos. E não porque ande a fazer coisas estranhas com eles, simplesmente acontecem coisas, coisas paranormais, temo, e posso andar precavida e sempre atenta a prever acidentes que, eles sucedem, de uma forma ou de outra; uma espécie de fatalidade para acidentes domésticos. Querem ver?! Outro dia mudei os vasos de lugar porque tive que colocar os cães no pátio da frente, temporariamente. Cães e vasos não combinam pelo que não podem repartir o mesmo espaço; olhando para os vasos com plantas airosas de muita chuva fico contente que se mantenham assim, intactos; insidiosamente um pensamento atravessa-me o espírito em lapsos de segundos, imagino instantaneamente um momento de caos, livro essa imagem da minha cabeça; meia hora depois, um dos vasos está revirado, partido e o interior extravasou para fora: e não foi um dos cães, desta vez não os posso culpar, a gata, aquela medrosa que nunca vai para a rua, teve o seu grito de Ipiranga, em sintonia absoluta com a minha premonição, saltou para o vaso em cima do muro (qual a probabilidade daquela gata fazer aquela coisa outra vez no seu tempo de vida?! Eu diria 0,000001 % e já estarei a ser generosa) e pimba, 3 metros abaixo o resultado vê-se. O que me leva a pensar: para que te maças? Deixa o mundo desmoronar-se todo se quiser, senta-te e espera, sorri se conseguires, tudo o que faças, só vai atrapalhar, deixa o curso natural dos disparates acontecerem, há um ponto em que pára e se tudo correr bem, tu estarás mais ou menos incólume e sem os nervos em frangalhos. 

   Há gente de coluna vertebral de tal forma flexível que consegue cheirar o próprio rabo e sendo assim aguentam qualquer merda, engolem sapos atrás de sapos porque quando deviam soltar verborreia, encolhem-se e na sua pequenez limpam as armas para mais tarde, quando o inimigo está de costas. Propagandeam-se como arautos de um carácter irrepreensível, donos de uma conduta moral sem mácula, gente de fibra e de substância, de valores sólidos e fidelidade inquestionável. São conciliadores, nunca dizem uma palavra que ofenda, nunca têm que pedir perdão a ninguém porque na sua condição de alma impoluta, nunca ofenderam ninguém, desiludem-se todos os dias com os seus semelhantes que, fracos, imperfeitos, irreflectidos, pecam constantemente por actos e omissões e sempre contra si. Relevam constantemente essas ofensas, sentem-se bem a levar pancada dos outros, são sofredores por profissão, resilientes na sua dor única. E são burros, muito burros e na estupidez de quem se julga destinado a uma existência sublime, são ridículos e não o sabem.
   Manter o despertador a tocar ao fds à mesma hora para que acorde com a constatação deliciosa de que hoje o gajo nao me tira da cama, poder falar com ele, destilando o ressentimento de uma semana inteirinha, dizendo-lhe " gosto tanto de te poder calar, é sem dúvida um dos momentos mais altos da semana, este em não mandas em mim", carregar na tecla com o sorriso triunfante de quem, mais uma vez, enganou o bicho, virar-me para o lado, ajeitar a roupa, e gozar o momento, que é sublime...se estou para prolongar o prazer levantar-me durante 5 minutos, vagueando pela casa silenciosa, e assim consolada, desagravados os pecados desse despertador demoníaco, voltar a deitar-me e deixar-me envolver no calor de uma cama ainda quente....grande momento de felicidade!
Esta ideia da restrição de cães e gatos em apartamentos é altamente discriminatória e sugere-me algumas questões: primeiro , deixa de fora toda a gente que não vive em apartamentos, os que vivem em casas ou barracas, roulottes e barcos e outros modelos não convencionais e aos quais chamam de igual modo, lar! Segundo, discrimina todo o bicho que não é canino nem felino e que se sente injustamente ignorado nesta pretensão a lei: coelhos, anões ou não, 
passarada e animais de sangue frio, tudo como se não existissem...para além de que dizer que são dois cães ou 4 gatos é redutor: se forem dois cães pequenos, minúsculos até é a mesma coisa que serem dois serras da estrela? É que os serras da estrelas soltam mais pêlo e fazem mais poias mas os minúsculos fazem mais barulho, têm aquele ladrar que se enfia pelos ouvidos adentro e são normalmente belicosos e de má catadura ..o que será pior?! E caso haja 5 gatos e nenhum cão será que o gato a mais poderá contar para a estatística de meio cão? E a partir de quantos quilos é que poderá corresponder a um cão por inteiro?! Ou é dois cães ou quatro gatos não podendo haver acumulação de duas espécies animais diferentes?! E se eu quiser ter um cabrito na varanda e tiver varanda para o cabrito e se eu limpar a caca do meu cabrito e o meu cabrito tiver um problema nas cordas vocais e for mais calado que um rato, não o posso ter na varanda porquê?! E se houver ratos no meu apartamento ou casa ou barraca e não os tiver convidado a entrar e mesmo assim eles tiverem entrado sub-repticiamente, passo a ser responsável por aqueles ratos e por todos os seus actos?! Serão por isso ratos de estimação e entram para a estatística total?! Tanta questão que se me assalta o cérebro...

Amanhar peixe...

Descobri há pouco a piada que é por os putos a amanharem carapaus (chicharros cá no burgo)! Outro dia com o supermercado cheio de gente com desejos frenéticos por carapaus e somente duas empregadas a atender, uma das quais a amanhá-los que nem uma condenada e porque tudo bufava de impaciência e eu já quase infectada pela má onda, prescindi do amanho do meu peixe e zarpei lesta para casa; a caminho pensei que seria um excelente exercício de motricidade fina para a criançada! Esqueci-me, no entanto de prever os esgares e exclamações de protesto de miúdos que nunca foram assim tão protegidos dos nojos da vida!" É tripa de peixe, não é merda! " " Bem, tecnicamente é!" Resposta quase sempre do espertalhão do meio! "Fazes ideia dos quilómetros de nhanha do género que tens dentro de ti?" " Pois, mas não me ando a estripar para o confirmar!" A bufar já, a pergunta repleta de originalidade " Gostas de peixinho frito, não gostas?" A boca já aberta para a resposta pronta e a ordem da praxe para eliminar mais qq insubordinação " Encerrou a conversa!" O filho do meio, o tal original que queria, não há muitos anos atrás, ser palmeirista, ou seja, dedicar-se às palmeiras a tempo inteiro e exclusivo, no seu modo muito peculiar, discreto e quase subrepticio foi buscar luvas e foi vê-los a todos a amanharem o peixe de luvas, de expressões fáciais nitidamente contrariadas e a dissertarem sobre a dificuldade de tirarem tripas a um ser de 10 cm de comprimento e como aquilo tudo é pegajoso. Os primeiros peixinhos à media de 1 a cada 30 segundos, a agilidade foi melhorando e às tantas a coisa tornou-se numa competição, acabaram-se os nojos e foi vê-los a ver quem amanhava mais, o palmeirista incluído! Hoje, é uma questão de princípio instituída cá em casa, tarefa exclusiva deles, tanto experiência hão-de ter que perceberão prestes que sem luvas é mais rápido e mais hipóteses terão de ganhar! E acabam-se os nojos, estes pelo menos!


A teoria de que, um carro pertença de um dono impaciente que mude incessantemente de fila nas bichas de finais de dia em cidades movimentadas, acabará ao fim de tempo x , por ter avançado tanto quanto aquele que vai a ouvir uma ária de Puccini e como tal tão stressado quanto uma preguiça, poderá aplicar-se nas filas dos supermercados do modelo/continente ou qq outro local onde se forme fila e haja gente impaciente à coca da melhor caixa para passar. Se concomitantemente, eu estiver presente e for paciente, que sou, a teoria das bichas dos carros não se aplica: tal atitude serena não me vai ajudar nada a chegar ao mesmo tempo à caixa que o maior frenético das pressas, serei sempre a última a ser atendida; se, pelo contrário estiver numa fase mais arisca de alguma contestação rebelde e tiver resolvido mudar de caixa à última da hora, é certo e sabido que o cliente à minha frente vai ter um problema repentino qq no qual será necessário chamar um superior para o resolver e o paciente da caixa ao lado que ainda há ténues 5 minutos, estava atrás de mim, será atendido num ápice e não se irá embora sem que antes  me lance um sorriso de suprema irónia!

Prima donna

  De vez em quando acontece... surge alguém desequilibrado! Não há forma de prever, não há sensores  nem indicadores fisiológicos que nos eriçem os cabelos da nuca como forma de aviso ante a desfaçatez; os doidos, os borderlines sociais, os desarticulados do comum bom senso aparecem não se sabe de onde nem porquê,  impõem-se e estrelam enquanto abrimos a boca num espanto; reviram e concentram a atenção em si próprios, num exercício de narcisismo com consequências para os outros, nunca para o próprio, protegidos que estão numa redoma onde não se beliscam, sequer;  fazem estragos e arreliam, constrangem e desgastam, e partem incólumes mas não sem antes, se consumirem em autos de flagelação e pena pungente de si próprios; são os mártires, os desalinhados, os incompreendidos, os iluminados, os de sensibilidade ardente e de franqueza suprema, os que falam e os que escrevem o que querem e quando querem e sobre o que querem, e onde, de tudo o que dizem, se nota delicadeza, ardor, paixão, génio, grandeza de alma, e em igual medida...e em suprema grandeza,  a estupidez, que sendo uma segunda pele, se conjuga com arrogância, arbitrariedade, incoerência, inconsequência, inconstância e um enorme, um profundo e irreprimível bocejo. 

Os sedutores e os outros

Entre as muitas caracterizações e agrupamentos que podemos fazer dos homens, enquanto género sexual, há aquela de que gosto particularmente e  que os divide em duas categorias: os sedutores e os incapazes de seduzir, sem categorias intermédias; ou sabe ou não sabe e pelo que vejo o que não sabe não irá passar a saber e o que sabe não consegue deixar de o ser; estão presos à sua condição de sedutor ou de anti-sedutor ( para não dizer palavra mais forte) sem dela conseguirem sair. O iletrado da sedução mete dó de ver: pode ser o gajo mais giro, de corpo mais torneado em masculinidade exuberante, o penteado mais cool e displicente desmazelo de cuidado com a roupa, o calção estrategicamente descaído abaixo da anca, em que não raras vezes se vê o vinco em triângulo da púbis, tudo neles é físico; pode ter a barba de 3 dias e o ar cansado de quem anda distraído  não se dando conta das feromonas que lança para o espaço; pode até ter um harém de gajas a trabalhar para ele e por ele; que nada disso interessa porque não trabalha para seduzir: julga erradamente que tudo lhe cai no prato e que seduzir é um acto menor! Desvaloriza o que é de valorizar, os sinais, os pequenos sinais, os olhares, o jogo de movimentações, a dança dos corpos das mulheres à sua roda. Esta qualidade de homens não merece um décimo do que as mulheres lhe proporcionam; não trabalham para isso! São burros julgando que lhes basta serem giros e durante uns tempos, enquanto dura o seu viço, têm sucesso, porque assim como burros que são, atraem mulheres burras e como tal sustentam-se uns aos outros. 

 Ainda dentro desta categoria dos anti-sedutores há os que, o são por convicção, consideram que as mulheres não os merecem, que mais cedo ou mais tarde as gajas irão decepcioná-los e que são todas iguais e que portanto não vale a pena investir um cêntimo na conquista; são os cínicos de serviço e atraem todas as mulheres que têm o seu lado masoquista bem desenvolvido e que curiosamente são seduzidas pela forma desprendida para não dizer, grosseira com que eles as tratam! Outra categoria pertence ao iletrados trapalhões, os que até quereriam seduzir e fartam-se de o fazer mas por incapacidade para dosear a forma e o modo como seduzem, fazem normalmente asneira; são os que não sabem temperar o peso das mãos no vestido delas, que atacam em rompantes muito despropositados, que as assustam antes mesmo de terem usufruído algo de valor! Ficam-se sempre pelos preliminares da arte de sedução e não aprendem com os erros, cometem sempre os mesmos! Os tímidos da sedução são um grupo acarinhado pelas mulheres, porque elas sabem, por experiência ou por instinto que por detrás de tanta reserva se escondem homens fogosos de bons instintos e que para que assim seja só basta rasgar a capa detrás da qual eles se escondem; no entanto são muitas vezes relegados por culpa delas, que impacientes e  apressadas na escolha dos seus homens escolhem erradamente com os olhos. No entanto, seja a mulher visada sábia e paciente e revelam-se seres maravilhosos, podendo até, com o hábito, passar para a categoria dos sedutores; são mesmo os únicos que o poderão fazer.

    Quanto a esta, a dos sedutores puros, têm em comum, nada fazerem objectivamente para o serem; é do seu código genético, seduzem como comem, como respiram, como ouvem música, não é independente de si; os seus gestos e os seus olhares, as suas inflexões de voz, a movimentação do seu corpo, a forma como se movem, tudo se conjuga na mesma direcção: o acto puro de sedução; normalmente são bem sucedidos no entanto prejudicados pelo preconceito feminino que nestas coisas da sedução anda muito mal habituada; a mulher dos tempos modernos não reconhece o gesto singelo de uma mão suavemente colocada pelas costas, um gesto quase de protecção, um olhar mais prolongado, um calor inusitado na voz, a aproximação quase imperceptível de um corpo na direcção do outro sem que, o julgue como um avanço atrevido no sentido único da cama. Para sua grande tristeza, as novas mulheres não são bem seduzidas, a arte e o esforço e o empenho de épocas passadas, perdeu-se algures no tempo. Os verdadeiros sedutores são uma classe minoritária, tão pequena que estranha! Estranha à mulher que a ela deveria ser sensível!  Sensível no início, permeável com o tempo, que o sedutor é paciente e sabe esperar!
   Na verdade, na grande parte das vezes é no sentido da cama que o sedutor seduz, é tão natural que assim o seja, no entanto fica ofendido quando a mulher o julga e o reduz a uma simples máquina sexual; o sedutor sente um prazer enorme no jogo de sedução, mesmo que recta final da sua sedução não se traduza no acto sexual como o ser humano a entende, acredita e sente grande prazer, nos preliminares e aceita que a sedução seja um fim em si mesmo, que lhe dá um grau de satisfação sexual tão grande ou maior que a conclusão dos seus esforços. Que não são esforços, afinal, o sedutor não se esforça, tudo lhe sai naturalmente.E ama a Mulher como a si mesmo!

Nota importante: existe outra categoria de homem a meio caminho entre o trapalhão mas acima deste porque esforçado e mais refinado mas abaixo do sedutor puro porque não seduz efectivamente nada! É uma categoria consubstanciada num ser, por enquanto num ser único, o grande Melro Preto mas a este já dediquei uma crónica inteira e como ser único que é seria, no mínimo  desrespeitoso que o enquadrasse com os outros. Quem estiver curioso pode procurá-lo aqui, algures no blogue. Fica a no

Rabos contra mamas

  É assunto recorrente: onde se encontrem amigos, dos dois sexos ou um apenas ou mesmo de sexo indefinido, mais cedo ou mais tarde surge a questão: rabos ou mamas, o que dá mais pica? Quanto olhas para uma mulher mas onde resvalam os teus olhos primeiro? E deixa-te de tretas e responde sem falsidades, se tivesses que escolher e te dessem uma mulher às peças para montares tipo puzzle, qual era a parte que montavas primeiro a ver o que saia dali?  Aliás, este assunto é tão batido e universalmente aceite, desde a distante Islândia até à ilha do Corvo,  que amigos que se prezem, se intitulem de amigos, já o tiveram e quanto mais descritivas, picantes e explicitas forem as explicações mais unidos se sentem; os homens já não guardam nada das mulheres, as mulheres não se inibem de comentar o que quer que seja com os seus homens, amantes ou amigos. Portanto, se uma amiga perguntar a um amigo " olha lá, gostas mais de rabos ou mamas?" é sinónimo de " vês como sou tua amiga, dou-te o privilégio de responderes a um assunto de alguma intimidade, mas como a tua amizade não tem segredos nem preço para mim, tens o direito a responder a esta questão!" A esta questão eles descodificam da seguinte forma " acho-te muito giro, se esta questão tão impeditiva de seres namorado da minha melhor amiga não surgisse entre nós, podes crer que antes de responderes eu mostrava-te que era para poderes decidir melhor ou mesmo mudares o sentido da tua resposta". Ultrapassada esta óbvia falha de comunicação  o homem sente-se compelido a responder; se a pergunta for feita por um homem a resposta é mais simples, não há cá alterações no código de linguagem que é para não haver más interpretações: a resposta seria: as mamas! ou o cu! ponto. Sendo a pergunta formulada por uma ela a resposta quer-se mais elaborada se bem que com mais ou menos floreados a resposta é sempre a mesma: " gosto de um rabinho bem torneadinho, desperta-me muito mais a atenção que um(uns) peito/seios/colo (esta última expressão é para quem andou a ler muita literatura do século dezanove)!" ou o contrário " umas maminhas redondas, tipo laranja, nada de excessivas nem muito pesadas ( quando eles aplicam o termo pesadas significa tão só que quanto maiores melhor, não acreditar em tudo o que dizem), são esteticamente perfeitas e representam a verdadeira essência da mulher, enquanto fêmea,  a sua verdadeira condição feminina, o rabo parece-me muito secundário ante a visão de um peito bem formado" na verdade, nenhum homem diz assim mas seria assim que o faria caso pudesse, para poder esconder das mulheres que gosta mesmo é de " mamas para caso seja possível me afogar nelas!". Consoante a resposta assim argumentam elas: " a sério, preferes rabos? então porquê? Mas que tipos de rabos, grandes, medianos, pequenos, arrebitados?! ou mamas, não achas uma escolha demasiado óbvia? Afinal de contas o que é que vocês encontram de especial nas mamas? E tantas que andam por aí de mamas siliconizadas? também te agradam? Explica-me que eu quero perceber! " E eles, coitadinhos caiem na asneira de responderem. A cada argumento, contra argumentam elas e nunca a resposta dada as satisfaz, mas mesmo nunca! Pode o homem esmiufrar-se em explicações de mais ou menos complexidade para além do óbvio desejo carnal do homem pela mulher, elevar a discussão a uma questão de alguma complexidade filosófica que elas nunca ficarão satisfeitas, pelo que é, à partida uma discussão que nunca terá fim nem apaziguará ninguém! No entanto, tem-na porque lhes transmite um bom sentido de grupo. Elas sentem-se tolerantes, compreensivas, maternais para com as escolhas estranhas deles, eles exaustos e incapazes de pensar em mamas e rabos durante a semana seguinte. 

   E no entanto, os homens quando olham para uma mulher, olham para mamas e rabos, alguns, uma minoria, um grupo mais ou menos restrito olha para olhos, bocas e dentes e para pernas, se bem que os que olham para pernas são um subgrupo dos pró-rabos e portanto não têm identidade independente. Para além destes, os quase excêntricos, existe um outro grupo, o dos bizarros, aqueles que olham para partes de uma mulher em que mais ninguém olha, a curva do pescoço, os lóbulos das orelhas, a testa e a ossatura do rosto ou mesmo o prognatismo do maxilar inferior em relação ao superior: há quem ache que se vê aqui o carácter e a força de uma mulher e isso fá-los voar !!!! Há um grupo intermédio entre os estranhos e os comuns ( os das mamas e rabos) que são os que gostam das extremidades superiores, os adeptos das mãos; no topo inferior, os mesmo muito estranhos e em  número muito restrito , enclausurados num mundo só deles, os adeptos ferrenhos se não doentios, dos pés. Estes elevam-nos a uma condição divinal e são os fundamentalistas da mulher à peça para além de serem altamente criativos. Sabe-se lá o que podem fazer com eles! 
   Todos estes seres, de escolhas mais refinadas são olhados pelos seus pares, os comuns, com algum desdém. Uma conversa de café " olha-me aquele avião que acabou em entrar!" (existe uma corrente também recente de associar as mulheres à aeronáutica,  desconhece-se a causa!) " Bonita, reparaste na curva da sua sobrancelha?! " O outro olhando-o como quem não acredita no que ouviu: " Quem é que olha para a sobrancelha quando vê uma gaja com aquele par de airbags?" O outro, poeta, insiste: " Eu perdia-me naqueles olhos!" Diz o primeiro: " Ouve lá, estás doente, mano?! vai-te tratar!" O outro ainda refuta: " Uma mulher não se resume a mamas e rabo! " ao que o outro responde numa sonora gargalhada. " pois, pois, o importante é ser bonita por dentro! "

Os amigos "faz de conta que são amigos"

Qualquer ser humano de estrutura mental dentro dos padrões reconhecidos como normais tem um grupo interessante de amigos dos quais não abdica; esses amigos são reconhecidamente imprescindíveis para a sua vida social que gostam de cultivar; é um ser gregário, é em grupo que se identifica e se sente bem; só os eremitas e demais seres de má catadura conseguem viver uma vida numa espécie de reclusão auto-imposta e se sentirem realizados por essa via, a da exclusão. Os restantes precisam de companhia. No entanto não andam por aí, propriamente, amigos a cair às resmas como gotinhas de chuva pelo que cada um, o melhor que pode vai seleccionando uns quantos, os que pode e os que deixam que possa. Por processos não totalmente compreendidos existem pontes entre algumas pessoas que lhes permitem aproximar-se uma da outra. Os critérios de selecção dos amigos são vastos, quase nunca inteligíveis e nem sempre de substrato sólido: muitos, superficiais até! Pouco importa! Feito o amigo e tendo essa amizade uma idade ainda muito frágil assegura-se o fortalecimento da amizade através de jantares, encontros, petisqueiras e cenas afins de consolo para o estômago,  um bom valor etílico a acompanhar a fim de acelerar o processo de amigação. Estes momentos tendem a desmultiplicar-se em variadas cópias porque é uma receita de comprovada eficácia: comida para a pança porque todos os dias se tem fome;  álcool para a pinha porque se liberta o espírito e se tende a ser mais amiguinho e portanto, mais predisposto para aguentar o outro, o que em circunstâncias sóbrias não haveria pachorra para tal;  companhia para a nossa insustentável solidão! Resulta infalível se não nos começarmos a armar em esquisitos! No entanto, em dez amigos que se faz só dois passarão da condição de amigos para a condição de Amigos, os outros serão amigos mas numa situação mais precária, com prazo: enquanto dois desses futuros amigos o serão para todo o sempre os outros oito amigos, o serão desde que as condições ambientais sejam as propicias.

Princípios fundamentais: 1º   Proibido dar secas, de qualquer tipo; 2º Proibida a critica pessoal; 3º    Proibida a discussão estéril susceptível de criar atrito; 4º    Proibida a tristeza e quaisquer sentimentos negativos que possam influenciar o estado geral do grupo;



Observados este princípios temos amigos e podemos jogar essa amizade da forma mais conveniente; os meses do verão serão aqueles onde a dança dos amigos terá mais impacto, rodam-se pelas casas de uns e outros e a vida social é de uma intensidade tal que se julga, por um  momento, não se terem nunca tido amigos como aqueles. Rapidamente se ultrapassa esse logro, é que não se consegue estar de cara alegre todo o tempo da nossa existência e para os momentos em que somos feios, tal sorte de amigos não serve, muito porque não está para isso. E a gente não quer!
Ainda que o termo de raça dentro do ser humano esteja em desuso há quem o faça e que insista nas suas derivações linguísticas mais ou menos preconceituosas  numa tentativa de separação das diferenças mas esquecendo-se que é maior aquilo que nos une do que aquilo que nos separa; e no entanto também eu fico ofendida com certas utilizações da língua em que não me revejo: eu também não gosto que me chamem de branca ou branquela e outras palavras da mesma família; eu não devo chamar de preto a alguém de “raça” negra, por óbvia inexactidão da palavra;  a mim não me devem tratar por branca, por óbvia inexactidão da palavra; é que eu não sou branca da cor do papel assim como o de raça negra não é preto da cor da fuligem, e no entanto sou branca para tanta gente e isso chateia-me; chateia-me por até nem gosto da cor branca, é aborrecida e monótona e só fica bem nas paredes e nos lençóis da cama;  e depois há  esta coisa estranha de pertencer ao grupo dos que não têm cor  em oposição a gente de cor, porque alguém disse, provavelmente algum ser desbotado de tons a tenderem para o esverdeado; não quero pertencer a esse grupo, isto deixa-me deixa-me mais lívida que a minha cor habitual. É incoerente, porque umas vezes sou branca e outras vezes já não tenho cor, posso não tem uma corzinha tão bronzeada e só a conseguir à conta de sol mas ainda assim tenho alguma corzinha, anda alí pela cor-de-rosa meia clara com algumas pinceladas de vermelho ou amarelo em dias mais biliosos, mas se pensarmos bem percorro mais camadas do arco-íris do que a gente de cor de tons acastanhados pelo que quero ser também incluída no grupo das pessoas de cor. E nem é por inveja, é por uma simples e mera constatação: Eu tenho cor e não prescindo dela, é uma mescla de tons que se confunde, gradação de cor de que sofrem todos os outros, os pretos e os amarelos e vermelhos! E nisso reside a nossa menor diferença.

O conas

A expressão " És um coninhas" aplica-se exclusivamente a homens, dizê-lo a uma mulher é uma redundância e não especialmente ofensivo. Aplicá-lo a um homem é outra conversa; nada é mais insuportavelmente irritante do que um homem coninhas. São aqueles seres miudinhos nos gestos e nas ideias, de tal forma herméticos que se inclinam sempre para um sentido e carecem de ginástica mental para penderem, por vezes, para o lado contrário. Há homens coninhas em todos os sectores da sociedade mas é no ensino que eles medram, como cogumelos numa floresta sombria. Os professores coninhas são os mais refinados dentro do género, porque sentem legitimidade no oficio para serem  uns verdadeiros conas. São chatos e compostinhos, seguem todas as ordens carneiramente, não levantam a voz e são sempre delicados. Existem numa proporção de 90% para 10%, sendo que os 10% correspondem a malucos da cabeça, cromos e afins, aqueles de quem toda a gente se afasta nos corredores  e os outros, os a quem disseram que era uma jogada inteligente e de colheita profícua ir para o ensino porque eram só gajas. São tipos inteligentes e sabem coisas, sabem mexer em papeis e dominam as artes informáticas. Dão bons diretores de turma, assessores de qualquer coisa, são fiáveis e profissionais. Competentes no seu ofício, não arriscam jogadas pedagógicas arriscadas, se lhes mudam a sala de reuniões ficam momentaneamente desorientados esquecendo que podem escolher entre mais 20 salas geometricamente iguais; nunca se ouviram numa gargalhada ao fundo do corredor, nem contaram uma anedota porca na sala de professores; levam marmitas etiquetadas com a comidinha que a esposa amorosamente lhes arranja.  Há muito que esqueceram as virtudes do exercício físico, os conas radicais nunca pegaram num cigarro, nos jantares de professores bebem água, dizem que o álcool a eles lhes provoca azia e eczemas no couro cabeludo. Observam-se na escola porque são poucos, saltam à vista apesar de quererem desesperadamente passar despercebidos, ajustaram-se a tanta estridência feminina e encontraram um nicho no qual sobrevivem. É como se elas, com o tempo, lhes tivessem sugado todo o espírito. Têm o mesmo efeito do que um ansiolitico com a desvantagem de não se poder dormir no local de trabalho.   

O mártir

 De há uns tempos para cá tenho-me detido na tentativa de compreensão de um tipo de gente que se arroga de moralmente superior, gente de irrepreensível comportamento, católicos ferrenhos de moralidade inatacável e por consequência doutorados na critica contundente dos outros, os pecadores por pensamentos, actos e omissões.  Aqueles que cristalizam as suas convicções conservadoras e bafientas com a prática regular dos deveres religiosos e aí param na compreensão dos pecados dos outros, que não querem compreender porque é pecado.
   Os outros, os que se arrastam pela lama em que se tornou a sua vida, os outros  que tão dignos de dó e para quem se olha, condescendente, do alto do pedestal das boas práticas cristãs. Os outros que cometem indignidades e vivem uma vida irresponsável disfarçada de felicidade,  pejada de acções inconsequentes e das quais deverão envergonhar-se, eternamente. Umas vergastadas nas costas, umas vestes húmidas cobertas de sal, o sofrimento físico para remissão dos excessos da carne.
   Se a estes paladinos da moral cristã se juntar a convicção martirizada que se vem a este mundo para sofrer e que no sofrimento se vislumbra a luz, temos assegurado um mártir, um ser que não é deste mundo, que no sofrimento se conforta,  alimentando-se com a incompreensão dos outros.
   Usam cilícios morais e penitenciam-se constantemente. Contristados com impuros pensamentos, que os têm, procuram a contrição em todos os aspectos da sua vida: a eles reclamam todos os trabalhos, todas as responsabilidades, todas as agruras e aborrecimentos da vida, certos que assim sendo se aproximam da salvação eterna. Desprezam os que assim não pensam, todos os que agarrados à vida, o fazem pensando como esta é bela e merecedora de gozo. E que agem em conformidade, vivem, riem e fazem amor, e bebem a vida  e gozam de si próprios.
   São parcos nessas manifestações terrenas, o riso é doseado e os prazeres terrenos na medida certa em que não se excedem. O excesso de viver e da louca transigência dos pecadilhos da vida, são interditados.   Levam-se demasiado a sério,  são incapazes do riso de si próprios, de se ridicularizarem e com isso de saírem incólumes, não beliscados na sua imaculada moral. 
   Já provaram o pecado, sentiram o poder da tentação, deitaram-se no leito libidinoso de que se reveste, sentiram o ardor húmido e pulsante, momentaneamente perderam-se nele mas, revestidos de mais e mais força, de luta valorosa e vitoriosa, não se permitiram permanecer. 
   São aborrecidos e chatos não porque queiram mas  porque alguém tem que o ser, a consciência que falta aos irresponsáveis desta vida; caminham fintando os pés porque vergados ante o mundo que carregam. São a nossa consciência sem que lhes tenhamos encomendado um sermão. 

O ego desmedido de algumas pessoas deixa-me desconfortável! O embaraço alheio que custa tanto a suportar porque olhando para aquela pessoa em concreto é como se nos víssemos nela e a possibilidade da figura de urso que faríamos acaso fossemos atraídos para tais desmandos de vaidade. Tal  como escarneço de todos os falsos modestos, os que tendo talento o sabem como ninguém e se envergonham quando, os outros, os enaltecem como devem e merecem mas, porque lhes disseram que os feitos concretos e louváveis não são de se apregoar aos quatro ventos, mantém uma postura de recato quando por dentro temem explodir de auto-jubilo. E no entanto, prefiro de longe um egocêntrico declarado, assumido e insuportavelmente pedante a um egoreprimido que se vai enchendo de soberba mal contida enquanto ruboriza a cada elogio e encolhe os ombros dizendo. " Palavra, não sei donde vem este talento. É intrínseco mas não vale a pena fazerem tanto burburinho! Eu sou assim mas por favor não digam isso alto, não parece bem."   É que para a legião de lambe cus que lambe os ditos aos primeiros o trabalho sai sempre mais facilitado, os egocêntricos assumidos põem o cu mais a jeito, já os segundos, de casta modestia obrigam os indefectíveis seguidores a movimentos de maior contorcionismo para lá chegarem. 

O caga na saquinha

Há expressões poderosas, algumas facilmente entendiveis na sua forma e conteúdo e outras nem por isso; umas quantas, se as dissecarmos, palavra por palavra, parecem-nos absurdas e no entanto, aplicam-se maravilhosamente bem. A "caga-na-saquinha" é daquelas indecifráveis na forma mas que se aplicam, em pleno, a certo tipo de pessoas, aquelas que não conseguimos definir melhor senão dizendo que, são os verdadeiros "caga-na-saquinha". O tipo "caga-na-saquinha é  medroso, tristonho, injustiçado pela vida, pelos outros, pelo estado do tempo, pelo carro que furou o pneu, pelo cão que lhe alçou a pata, pela namorada que foi apanhada na cama com outra, na sua cama, o Calimero dos tempos modernos que diz compungido " It's an injustice, it is!" Aquele que, quando se lhe aperta o esfincter para o inevitável  e está a céu aberto com o cu a roçar a erva fresquinha, pensa que será uma grande injustiça, logo com todas as probabilidades que, logo ali, que tanto precisa, venha uma vespa e lhe  pregue um ferrão numa das bordas. O caga-na-saquinha para além de tristonho e de olhos sofridos e lacrimejantes mendiga a atenção dos outros com tal afinco que cria clareiras à medida que avança. De mãos nos bolsos, tímido e dissimulado, vai-se aproximando, medroso mas tenaz, que isso ele é: tenaz! Tenaz na seca que dá aos outros, na doutrinação das suas convicções teóricas e éticas sobre a vida e sobre o mundo, ainda que não as aplique no seu caso em concreto. Tenaz no egoísmo extremo também. O caga-na-saquinha pensa nele e depois nos outros, se lhe restar algum ímpeto depois de gastar as forças a pensar em si.  Gosta de ter razão e se posto em confronto reaje mal, levanta a voz ameaçando coragem que, rápido se esvai, se do lado de lá, quem o confronta mantém o tom. Seria eclesiástico se do tipo religioso, ou eco guerrilheiro se não desse tanto trabalho, como é laico e gosta pouco de trabalhar, fica-se pela mansidão de um trabalho de que não gosta, chorando o que não tem e suspirando pelo mundo de possibilidades do que gostaria de fazer mas que não faz, porque se encontra sempre no local errado do mundo que não é o dele.  É uma carraça mal alimentada que vai sugando como pode.  Enxota-se como as moscas quando vareja demasiado para os nossos lados. É um sugadoiro de forças alheias, um parasita do tipo intestinal que em nada contribui para a nossa digestão.  Uma consumição! 


 "Então pá, define-te lá, anda?! É verdade que o melhor da vida de qualquer mulher começa depois dos 40?! Que é nessa altura que estão maduras sem terem perdido a frescura e muito, mas muito mais marotas do que as verdes vintonas e as insípidas trintonas?! " Pfff, quem te disse isso anda em negação! Meu amigo, com a algibeira vazia, o cabelo a esbranquiçar, as peles dos braços a abanarem como pelancas velhas, estamos aqui é a desejar o consolo de chegarmos à terceira idade, porque aí estamos velhos e ninguém quer saber se estamos velhos e as pelancas dos braços são as pelancas dos braços que os velhos têm e os filhos há muito deixaram de ser os adolescentes egoístas e agora são só adultos e egoístas e os adultos não nos arruínam o orçamento. Enquanto adolescentes despejam o nosso frigorífico a horas pontuais, semeando esqueletos de maças roídas por baixo das almofadas dos sofás e cuecas sujas entre a porta da casa de banho e o cesto da roupa suja. Dizem-te que não percebem nada do que falas e que não entendes mesmo a ponta de um corno do que é a onda deles. Que não passas de um adulto "mainstream" aborrecido e comum, nome cientifico que usam para designar a mãe ou o pai  e que não queiras ter a veleidade de te aproximar deles, o seu mundo não é o teu e nesse mundo eles não te querem; a não ser que, desse mundo, os tipos façam um interregno a fim de que possas ter o privilégio de lhes preparar um leite estupidamente frio  com bolachas.  
" Defino-me?!! Ora deixa cá ver: à beira dos 50 anos, sem nada de meu a não ser um carro azul tipo carrinha do pão e que me dá aquele estilo extra, o toque final, o glamour da tipa desportiva descontraída que tem um carro de sete lugares para transportar canalha. Isso e as dívidas; não é que elas não me consolem, afinal de contas já convivo com elas há tanto tempo que se não as tiver é como se me falte algo. Para compor o ramalhete final, dizer que sou funcionária pública,  dou aulas, parece que tento ensinar umas coisas a uns seres e parece que esses seres vão aprendendo algumas coisas comigo, de vez em quando e se apetece. E nestes tempos de incerteza sobre o que quer ou não quer o adolescente, só sei mesmo se querem aprender, no próprio momento e de instante a instante, de manhã podem querer, à tarde arrependeram-se e já não querem e eu adapto-me. 
   Estou a ficar velha mas não sou velha, no limbo entre a perda do viço da minha condição de mulher mas não suficientemente velha para que parem de implicar comigo porque envelheço. Nesta fase transitória vistoriam-me as rugas do rosto, as peles das pernas e a flacidez das mamas e interiormente pensam, coitada, calha a todos, esta já passou a sua fase ascendente, agora é sempre para baixo mas vá lá, vá lá, podia estar pior, ainda se aguenta bem, se disfarçasse esses brancos e onde é que já se viu, tem a pele tão maltratada, é inacreditável como as pessoas não tratam de si. És uma mulher gira mas já não tão gira, estás na fase em que de ti dizem: é bonita mas haviam de ver quando tinha 20 anos, aí é que era uma brasa. Andaste estes anos todos a madurar em conhecimento e sabedoria, a separar o trigo e o joio, o acessório do que importa para que no final, o que conte é que foste muito mais gira do que és agora. E depois vêm com tretas que agora é que é, que a maturidade não tem preço, numa tentativa bacoca para esquecerem a inevitabilidade do seu próprio envelhecimento. 
  Mas à beira dos 50, tens uma prerrogativa que te assenta como uma luva, estás completamente nas tintas para o que dizem de ti, as rugas são tuas, as pelancas abanam nos teus braços e a celulite levou-te muitos anos em estágio e é-te de grande consolo mandar certa gente e todos e tudo para o caralho, quando te apetece e sem saberes bem porquê. dá para tudo, mandas simplesmente e nisso vês consolo, ainda que não te sirva de grande coisa, para além de um alívio imediato. Como é temporário tendes a mandar cada vez mais vezes, porque o efeito é como nos ansiolíticos, quantos mais mandas mais tens de mandar. E é um privilégio que podes dosear a teu gosto!

Dirás, eu cá preferiria ser rico! Esse é que é um privilégio!

A sério?! Pois, olha que novidade, eu também e sabes, também preferiria ser a verde vintona ou a insípida trintona se conseguisse nessa idade ser menos estúpida ou menos sensaborona, ou menos desinteressante do que fui. Sendo assim e porque não posso, e com as peles todas e os primeiros achaques próprios da idade, vou dizendo que vou gostando do que sou mas se tivesse um milhão no banco ainda gostava muito mais.  Assim sendo e para ser sucinta, respondo:

À beira dos cinquenta , três filhos adolescentes indisponíveis e arruinada!