terça-feira, 10 de maio de 2016

A lei de Murphy

Conhecem com toda a certeza a Lei de Murphy que diz, de uma forma muito resumida, que aquilo que poderá correr mal, acaba por acontecer, da pior forma e no momento mais inesperado! É uma teoria pessimista mas pelo menos é precavida e permite-nos jogar um pouco com a vida por antecipação! Há sinais no início daquele dia de cão que nos fazem ficar de sentidos em alerta: a topada no dedo grande do pé logo pela manhã quando nos arrastamos da cama para fora, o cafeteira do café que nos queima os dedos e se espalha pelo chão, a nódoa na t-shirt preferida, as chaves do carro que desaparecem quando há dez segundos estavam ali mesmo (descobrem-se no frigorífico, obviamente o local mais  provável). O Murphy era um gajo esperto e eu sou muito sua amiga; sou crente absoluta nessa sua teoria e achando que, em alguma situação da minha vida, a probabilidade do azar me vir fazer uma visita é elevada, pego em mim e enfio-me debaixo da cama e espero que passe!
  
   Todo este preâmbulo para vos dizer que hoje vi o Mitra e o Murphy não me avisou! Nada! Levantei-me  bem disposta, um dia risonho, uma disposição magnífica, a promessa de um dia positivo e revigorante... nada de nuvens ameaçadoras, presságios soturnos ou vibrações negativas!
   Quando digo que vi o Mitra tenho que me corrigir uma vez que foi o Mitra que me viu a mim: quando dei por ele, já ele estava de olhos fixos na minha pessoa! 
   A registar: o supermercado Continente é uma zona de alto risco para contactos indesejados! Fui apanhada completamente desprevenida e dessa forma, incapaz de empreender uma manobra evasiva! Tarde demais até  para voltar a cabeça e assobiar para o lado! Mas Deus foi misericordioso e o Murphy benevolente uma vez que o mitra estava acompanhado. Ainda olhei a nova vitima de relance, em busca de um pedido mudo de socorro; nada li de dramático no seu semblante... ou é presa recente ou a abordagem do mitra refinou-se!
   Após uma saudação rápida mas perfeitamente civilizada e antes que o personagem se entusiasmasse, esgueirei-me de mansinho fitando esperançosamente a porta de saída, tal como um atleta de velocidade fita a linha da meta. Aí chegada, respirei profundamente, o súbito friozinho na espinha dissipou-se com o calor da manhã e os cabelos eriçados na nuca descontraíram-se subitamente! Ainda na zona de perigo, deslizei agilmente até ao carro, meia a andar e meia a correr e pisguei-me enquanto pude! Durante  um minuto gargalhei insanamente, depois acalmei-me e dirigi-me para casa!

   Não vou falar mais no mitra, nem era minha intenção fazê-lo hoje mas precisava deste momento de catarse!

   Escrevo da segurança do meu quarto, as portadas fechadas, em semi-obscuridade, aguardo pacientemente o final do dia, em modo de prevenção! Pedi gentilmente ao Murphy para ficar do lado de fora!

   Já o conheço, é brincalhão quanto baste para me surpreender duas vezes no mesmo dia: para encerrar em beleza um dia em que foi rei, nada como encontrar o..... Outro!





São Longuinho


   Vem esta crónica a propósito de uma conversa que tive ontem, num jantar, no Beira-Mar de São Mateus, sobre a cerimónia do casamento. Uma das minhas amigas convivas casou há pouco tempo, numa cerimónia que, soube ontem, foi muito discreta e elegante. Esta minha amiga é muito minuciosa e perfeccionista e preparou este momento, tão marcante da sua vida, com um cuidado especial. Nada foi deixado ao acaso, tudo foi pensado desde a ementa do jantar ao pormenor das fitinhas que adornaram os bancos da igreja. A certa altura falou-se dos imponderáveis, aquelas situações que acontecem quando não era suposto acontecerem mas que dão sempre o colorido ao momento e que ficam na memória muito mais do que aquilo que correu bem!

 Lembrei-me do meu casamento! Lembrei-me da cerimónia do meu casamento! Anteriormente pensado  para ser realizado na Terceira, no dia 1 de Setembro de 1991 na Igreja de São Pedro e posterior banquete no espaço reservado do Clube de Ténis, tudo já preparado nesse sentido, acabou por ser muito, mas muito diferente. Não estava destinado que fosse nesse dia. De tal forma, as ondas electromagnéticas ou o que é que seja estavam desalinhadas que seria impossível que acontecesse. Veja-se: recebi uns tempos antes um telefonema de uma rapariga, que iria casar no mesmo dia e que cobiçava o espaço onde iríamos dar o banquete e vai daí, sendo uma rapariga de fartos recursos e lata proporcional telefona-me a perguntar se seria muito irrazoável pedir-me para eu alterar o dia do meu casamento ou quanto muito mudar o local das comezainas. Já não me lembro o que respondi mas estou certa que o que quer que seja que lhe disse não a deixou satisfeita e andou a fazer rezas ou o diabo e a coisa deve ter tido uma pequena interferência junto dos equilíbrios cósmicos que gerem as vidas de todos nós. Entretanto, com ou sem ajuda de terceiros, o meu pai para grande tristeza nossa, morreu no dia 18 de Julho desse ano e ninguém estava com cabeça para festas! A minha mãe ficou inconsolável e eu não poderia pensar em manter o ritual do casório nos mesmos moldes; assim, naturalmente, cancelou-se tudo e chorou-se a ausência do meu pai! Foi o ano em que fiquei colocada pela primeira vez na Lousã, o ano em que eu e o meu namorado tinhamos decidido ir viver para essa vila, perto de Coimbra. Voltou a marcar-se nova data de casamento, desta feita para 11 de Outubro numa cerimónia civil na Conservatória de Almada. Feitos os convites, descobriu-se que, estariam presentes 13 pessoas; a minha mãe foi inflexivel, não sairia de casa para ir ao casamento se à mesa se sentassem 13 pessoas; em desespero de causa, uma amiga nossa,  à última da hora, trouxe um amigo, o verdadeiro penetra, um rapaz que nem eu nem o noivo conheciamos, mas caramba, não era altura para esquisitices! Não tivesse este "amigo" aparecido provavelmente iriamos dar um almoço de borla ao primeiro cabeludo indigente que nos aparecesse! Estavamos por tudo! Quanto ao "amigo" nunca mais o vi, mas prestou-nos um bom serviço!
    A senhora conservadora, talvez intuindo que, aquele casamento não se enquadrava nos padrões normais, apareceu muito desleixada,gordissima,   bamboleando-se afogueada e de chinelos a arrastar pelo chão. A sala reservada para o efeito era feia e repleta daqueles inefáveis quadros do menino com a lágrima a deslizar pelo rosto e sucedâneos!
   O almoço (açorda de marisco e bifinhos com cogumenlos) foi no Barbas da Costa da Caparica, que tem tudo a ver com o requinte e sofisticação do Laws Club Tennis!!! A própria ementa foi adequada ao requinte da ocasião.
   O fotógrafo fomos todos nós, fotografia de conjunto não houve, seriam 13 a posar já que o 14º teria que ser o fotógrafo e a minha mãe não permitiria; tal como não tiramos aquelas fotos tão artisticas dos noivos a cortarem o bolo, dos noivos a entrelaçarem os braços para o champanhe, dos noivos a beijarem-se... o padrinho fez a filmagem do casamento mas nunca ninguém chegou a ver a filmagem porque o padrinho nunca chegou a dar-nos a cassete, daquelas cassetes pequeninas... dúvido que saíba onde ela pára, se é que ainda existe!
   A lua de mel não existiu no tradicional sentido do termo! Não saímos de malas para lado nenhum, não apanhamos nenhum avião ou nenhum barco, a nossa suite de recém-casados foi o quarto dos pais do padrinho (sem os pais lá dentro, claro está!). Dessa parte da história já nem me lembro muito bem, sei que foi assim mesmo mas não sei porquê! Também sei que, biblicamente, o esposo não conheceu a esposa nessa noite porque tinha andado nos copos na véspera e estava para lá de moribundo! 
   Deixando o melhor para o fim, pouco antes de sairmos para a Conservatoria a minha mãe vem ter comigo desesperada, dizendo que perdeu a aliança de casamento, mais uma vez, "não saio de casa sem a aliança". Tudo na vida dela foram sinais, premonições, sensações, vibrações boas ou más! A Inês, a minha madrinha, veio em minha salvação: tendo vivido muitos anos no Brasil, conhecia uma reza de apelo ao Santo São Longuinho, crença popular muito enraizada que atribuia a este santo a capacidade de encontrar objectos perdidos. Assim, disse a Inês, é preciso dizer uma reza e tenho a certeza que se descobrirá a aliança!

São Longuinho, São Longuinho,
se eu achar (nome do objecto perdido)
dou três pulinhos e três gritinhos!

e assim foi, a minha mãe que naqueles dias de poucas alegrias andava a chorar pelos cantos foi convencida a dizer esta reza e foi, no minimo, bizarro, vê-la  a gritar e a pular na esperança de encontrar a sua aliança! E encontrou...10 minutos depois enrolada nas franjas da sua colcha de cama! Por essa altura, toda a emoção, o nervosismo, a tristeza imensa daquelas semanas desmoronou-se e começou toda a gente a rir descaradamente, de uma forma quase demente, misturada com lágrimas e beijos e abraços à salvadora Inês e ao São Longuinho, obviamente! Este tornou-se nosso amigo, e ainda hoje o evocamos quando necessitamos dos seus valiosos préstimos, certos de sermos prontamente atendidos.

O aldrabão com gosto em o ser

Outra sub-espécie interessante da fauna onde o ser humano se move é o aldrabão por convicção: distingue-se do aldrabão simples porquanto tudo  o que faz ou fará será conseguido a poder de esquemas e jogadas, no intuito do proveito rápido à custa de terceiros; enquanto o aldrabão simples aldraba se a oportunidade flagrante se escarrancha desavergonhadamente à sua frente (e quantos de nós não fomos já tentados por esses pequenos momentos de subversidade e quantos de nós a isso tentados não sucumbimos ante a possibilidade da transgressão?!),  os aldrabões convictos procuram a aldrabice como objectivo primeiro; dão-se bem em profissões de contacto físico directo com o outro  porque gostam da aldrabice personalizada, o trato olho no olho, a manha do engano no diálogo com o cliente; são pessoas extrovertidas, alegres e bem falantes; movem-se em negócios de pequena envergadura porque lhes falta a inteligência e o engenho para darem o salto para voos mais altos; normalmente vão criando anti-corpos junto dos clientes aldrabados, mas imunes a isso vão percorrendo o seu caminho na senda do pequeno embuste, como se a isso sejam compelidos inexoravelmente: é quase uma doença, uma necessidade física absoluta, uma  propensão premente para o logro! É por inerência um mentiroso compulsivo, mente com quantos dentes tem na boca e fá-lo sempre com um grande sorriso porque vive feliz na mentira!Procure-se o bom aldrabão, numa multidão de gente: será sempre aquele que diz que fez e aconteceu, o gabarolas pedante  cheio de referências cagonas, não poucas vezes de apelido vagamente sonante, de muitos pronomes e nomes, da língua materna ou nem por isso; acrescenta-se a tudo isto algumas, certas, relações de amizade, muito show of  e alguma pelintrice entre paredes, muito mas muito verniz velho prestes a estalar e completa-se o retrato! 

O lambe-botas

Hoje apetece-me falar de lambe-botas, ou a sua versão hard-core, os lambe-cus! Já que estou numa fase de adesão plena ao palavrão porque, olha, porque me apetece, nada melhor do que iniciar um pequeno solilóquio a propósito daqueles seres, sub-espécie do ser humano, digamos que uma versão imperfeita do ser humano, o que no final da cadeia de produção sofreu uma avaria na máquina, aquela que o dotaria da verdadeira espinha vertebral, a que define o ser humano naquilo que tem de mais nobre, o seu carácter! Os lambe-cus, na sua essência, não são lideres, falta-lhes garra para isso, os lambe-cus seguem o líder, qualquer que seja! Os lambe-cus não juram fidelidade a ninguém, só são fieis aos seus interesses e conseguem, no intento dos seus propósitos fazer qualquer coisa, por mais indigna que seja! Os lambe-cus não têm ideologias, a ideologia que seguem é a ideologia do que manda no momento! São subservientes com os seus superiores hierárquicos e arrogantes para com aqueles que já os toparam! Nada humildes para com estes, não aceitam criticas e muitas vezes se ofendem com a critica assertiva! Ficam fora de si e têm comportamentos de prima-donna! Raramente têm sentido de humor, conseguem o facto extraordinário de não acharem graça à piada genuína, normalmente são os mais carrancudos do grupo de trabalho com excepção quando o seu deus (leia-se, o seu chefe) abre a boca: aí são  encantadores, tornam-se intuitivos e rápidos nas suas piadas, fazem-nos por vezes pensar se estaremos a ser demasiado duros para com eles! Os lambe-cus são essencialmente burros, porque não sabem ser discretos nas suas intenções e são topados a léguas por quem tem um palmo de testa, contradizem-se frequentemente, não conseguem sustentar uma discussão sem invariavelmente, num momento ou outro, confundirem discussão profissional com questões pessoais; não são convictos nas suas ideias, ideologias já se  viu que não têm! São os melhores amigos de quem manda, antecipam-se nos seus desejos. São burocráticos e maçadores, lambem as feridas do chefe nas discussões com os outros, bichanam ao ouvido a sua solidariedade e destilam o seu desprezo às falhas dos outros, é o seu aliado primeiro, até achar que  lhe serve os seus intentos; quando deixa de servir, passa a ser mais outro, esquece-o como amigo e alia-se, sem pudor ao novo chefe! Estão em franco desenvolvimento porque  onde há um lambe-cú existe sempre alguém a gostar que lhe lambam o cu e, como tal, o mercado sustenta-se a si próprio!

O palavrão

O palavrão! Nunca me adaptei muito bem ao palavrão,  a vontade de o utilizar é grande principalmente pelas suas qualidades profilácticas e de combate à dor, mas a minha educação católica e conservadora sempre me refreou! Ultimamente tenho uma relação mais descontraída com ele e  uso-o  de uma forma menos complexada! 
   Se há muitos anos atrás me atrevia a dizer  a palavra "porra", ficava sempre com alguns complexos de culpa porque menina que é correcta não diz asneira, mas rapidamente me socorria do argumento " porra não é asneira, vai ver ao dicionário, PORRA!" Era a única que sabia que podia dizer sem estar a ser completamente subversiva, já todas as outras que ouvia, ditas normalmente pelos rapazes, soavam-me cruas e proibidas!
   A minha mãe que sempre nos educou na certeza que o palavrão era indigno de uma mulher, quando eu e a minha irmã crescemos e começamos a dar-lhe cabo da paciência com as nossas dúvidas existenciais juvenis começou a utilizar o "merda" quando sentia que a discussão conosco não iria ter um final satisfatório para o seu lado. Por esse motivo, esta palavra começou a frequentar-nos em algumas ocasiões. Se repreendia a minha mãe, esta dizia " merda não é asneira!" Era a única ocasião em que a minha mãe mentia deliberdamente, que eu sabia que aquela palavra não se dizia! Tinha  consciência que ela a dizia porque se sentia por vezes frustrada e quando a lógica e a sensatez não resultavam, uma boa asneirada resolvia a situação À conta disso comecei também a encerrar algumas refregas com ela com um rotundo "merda", circunstância que a deixava profundamente ofendida; inútil dizer-lhe que não estava propriamente a manda-la à merda, era só um desabafo que não visava ofendê-la! Pois sim, dizer, "Ó mãe merda!" não é muito diferente de dizer "Ó mãe, vá à merda!" mas para mim fazia toda a diferença! Engraçado como as coisas são, hoje sou eu que, derrotada e frustrada encerro algumas disputas verbais com os meus filhos com o consolador "Merda!". Que raio de exemplo estou eu a dar aos meus filhos?! pergunto-me de mim para comigo, alguns pruridos pedagógicos que rapidamente enxoto do meu pensamento, que diabo, sabe bem, fonix! É só uma reacção momentânea, de utilização S.O.S quando mais nada resulta! Não deve ser, de jeito algum, utilizada de forma rotineira porque perde o seu impacto! O espanto no rosto dos meus jovens é genuino quando lhes espeto esta enormidade pelas suas orelhas a dentro! Tem eficácia porque, não se espera que a mãe, a sua própria mãe lhes dirija nestes modos para mais sabendo eles que a mãe não diz palavrões! Este "merda" significa tão só "encerrou a conversa, a minha paciência convosco está no limite, façam-se invisíveis!"  Uma prima minha, contou-me esta história deliciosa: há alguns anos atrás vivia perto de uma amiga que tinha tido um bébé há pouco tempo e que como todos os bébés, este chorava e como todas as recém-mamãs esta também andava cansada e desesperada com os permanentes caprichos do pequeno ser. Um dia, da varanda da sua casa e depois de ter ouvido o seu bébé chorar tempos sem fim, ouviu a minha prima a resposta da sua cansada mãe "Vai à merda, bébé, vai à merda!". Duvido que tenha tido algum efeito na tenra criança mas sem dúvida que para a mãe foi aliviante! 

    Admito, alguns palavrões são muito fortes,  mas para mim nada pior do que aquele palavrão começado com o "C" ! Pode-se sempre substituí-lo pelas suas versões mais benignas e sentir parecido efeito: o caraças, o catano, o carago, mais amiude o CARAMBA! A original é uma palavra feia e ressonante, não dá para dizer um "caralho" entre dentes, a segunda e terceiras silabas são demasiado sonoras! E fosca-se, asneira que é asneira tem que ser dita de voz cheia! Mas não por mim que tenho vergonha, até vergonha para o dizer quando estou sozinha e acabei de morder a bochecha com todo o peso de um saco de cimento de 50 kilos em cima e apeteceria tanto dizer "cum caralho!". Esta palavra é muito descritiva,  já o "foda-se" é mais vago , um tempo verbal vagamente indistinto que tanto pode ser hoje como nunca e não fala de ninguém em particular! Não ofende ninguém, ao contrário do "vai-te foder", aí a coisa pia mais fino e já parte para o insulto, não é inofensivo é pressupõe sempre agressividade e mau conviver. Ninguém que dê uma topada no pé na quina da porta, diz para esta: "vai-te foder!!"; não tem lógica mas no entanto diz com grande propriedade "foda-se", fica bem, alivia como o caraças, é um desabafo perfeitamente inócuo e de utilidade comprovada até pelos estudos científicos que asseguram  a eficácia anestésica de um bom palavrão! Este verbo tem imensas aplicações e consoante a forma e a entoação como é dito assim significará coisas distintas: dizer "estás fodido comigo!" é diferente de dizer "estás fodido!"; no primeiro caso é certo que quem o pronunciou irá às trombas do visado, mais cedo ou mais tarde! Já a segunda frase pode significar isso também mas é mais certo que indique, de uma forma vaga mas igualmente dolorosa, o quando o infeliz está tramado, de uma forma ou outra, dê lá para onde der, sem fuga possível! Aliás, é aqui que os  amigos, não sem uma pontinha de  sonso prazer nos dizem:" andaste a esconder rendimentos... estás fodido, mais cedo ou mais tarde vais ser caçado pelas finanças" ou então "Ela já te apresentou aos pais?!... estás fodido, não te dou um ano até estares casado!". A expressão "vai-te foder!" é das três a mais ambígua e a menos franca: enquanto a primeira é uma honesta constatação bélica, uma promessa a realizar e a segunda uma afirmação amigável e condescendente, um aviso amigo do que poderá correr mal,  a terceira traz um belicismo cobarde: o emissor deixa às mãos do acaso ou ao cuidado de uma entidade superior, que o visado se foda (leia-se, se lixe)! O emissor não quer sujar as mãos, não tem tomates para isso, apenas tem esperança que o segundo sofra pela ofensa cometida. Deixa às mãos do destino a forma como o outro se fode desde que se foda efectivamente!
   Outra expressão de toda a beleza semântica é a grandemente utilizada " Que sa foda!"! Não deve haver expressão mais genuinamente portuguesa e que revele toda a postura pró-activa deste povo: "a crise está a dar cabo deste país? que sa foda!, também mais fodidos que isto não podemos ficar!". No fundo exprime de forma simples o carácter optimista (ou acomodado) da alma lusitana! "O mundo está a desabar sobre nós? que sa foda, era uma questão de tempo!" "Perdi a bolsa de estudo? Que sa foda, também não tinha direito a ela, falsifiquei a documentação!" E por aí fora...
   Por vezes estas expressões revelam pouca coerência senão vejamos: quando se diz: " estou fodido contigo!" significa que o primeiro está furibundo com o segundo, no entanto dizer "estás fodido comigo!" não significa necessariamente o inverso! Mas, no entanto, se da exclamação cheia de intenções do "estás fodido comigo!" acrescentarmos uma interrogação a medo " estás fodido comigo?!" aí aumenta a coerência porque já se entende que é sempre o sujeito da acção aquele que sofre o agravo em apreço!
   Nas minhas aulas, num jogo de futebol ouvir um "Ó caralho, passa a bola!" não é o mesmo que dizer "caralho que já me magoei"; no primeiro caso o caralho é o sujeito ( e portanto, inadmissível), no segundo caso é um desabafo nascido da dor física (e se não admissível, pelo menos compreensível). É preciso sempre procurar o contexto em que foi dito, por vezes fazer orelhas moucas a certas interjeições perfeitamente justificáveis e combater a ofensa deliberada! E podemos sempre ouvir, como resposta à nossa ordem de " Não quero ouvir nas minhas aulas a palavra começada com"F" !" a seguinte exclamação seráfica "quer dizer que não posso chamar o Floriberto?!!!"

    Nem me atrevo a continuar indefinidamente o rumo destas cogitações, entrando num âmbito, para mim, mais delicado como são todos os cambiantes criativos e com associações mais ou menos claras sobre as mães ou tias ou quaisquer outros elementos do sexo feminino em interligação com  o seu orgão sexual! Caragos ma foscam (eu sei, eu sei, não liga bem mas  sinto que já estiquei a corda um bom bocado e não sei se o Bom Deus não me castigará por isso!)  se vou aborrecer os meus pacientes potenciais leitores com mais indiscretas divagações! Por agora chega, por agora...
   

   

Rebeldia

Quando tomei consciência de que o mundo não era um lugar sempre seguro, bom, prazeroso, foi-me dito pela minha mãe, com sofrimento na voz e no tom que se usa para falar das coisas de que se sente uma falta dolorosa, que existira um irmão que morrera e que a dor sentida, permanecia e sempre a acompanharia até à sua morte. O nosso irmão vivia nas fotografias da sala e do quarto dos meus pais, por vezes vestido com a farda da mocidade portuguesa, a que não pertencia mas que, segundo a minha mãe, eram obrigados a ter. Não pertencia ao movimento, dizia a minha mãe mas o certo é que a imagem que guardo dele é com ela vestida, todo prezado, um pequeno soldado pronto para a luta. 
Num canto do seu guarda-fatos a minha mãe guardava, religiosamente, os seus livros e os cadernos da escola e todos os desenhos e postais de dias da mãe e do pai, onde escrevia o quanto os amava, postais sempre acompanhados de uma imagem da Nossa Senhora ou de São José, tão bem ao gosto do catolicismo conservador do Estado Novo. Guardava também alguma roupa, não muita, o vestidinho do batizado e recordo que, da farda da Mocidade Portuguesa restava só o cinto, em couro e com um S desenhado na fivela. Pequena que era nunca me questionei sobre o significado do S do cinto, para mim poderia ser um S como um C ou um K. Não me dizia nada. Regressada a Almada pouco depois da revolução de 1974, vindos de Moçambique vivíamos a comoção desses tempos, um tempo de esperança e novos começos. Eu sentia o frenesim, a discussão indecifrável de política dos adultos, cantava " Uma gaivota voava, voava", canção que repetia até à exaustão e habituara-me a trautear o hino do Movimento das Forças Armadas que me parecia heróico. Tinha 7 anos mas recordo imagens, sons, a televisão a preto e branco com as notícias frenéticas, entusiasmadas dos repórteres. Sabia que algo de muito solene tinha acontecido e recordo ter decidido, desde logo que pertencia ao Partido Comunista. Não sei porque tomei essa decisão mas pareceu-me que, por aquela altura, e do que tinha decifrado da linguagem dos adultos, eram eles os bons. Do General Ramalho Eanes recordo um personagem austero e lembro-me de pensar que aqueles óculos de massa escuros e excessivamente grossos, me causavam algum respeito. O homem não sorria mas o momento não era para risotas, intuía eu. Também gostava do camarada Vasco Gonçalves e do  Pinheiro de Azevedo, não porque percebesse algo do que diziam mas porque me parecia estarem também do lado dos bons.
Anos mais tarde, vinda de uma estadia de 5 anos na Terceira, em plena fase rebelde, numa das incursões ao sótão, onde encontrava sempre tralha interessante, volto a descobrir o cinto, guardado com outros objectos do passado. Decido usar o cinto que pertencia ao meu irmão, porque tinha sido dele e porque era giro. Era a época dos vestidos indianos com as malas de cabedal compradas numa ruela de Almada, malas que escureciam com o tempo. Era o tempo das missangas e dos sapatos mocassins, aquele cinto tinha tudo a ver, de couro curtido, muito hippie, achava eu, o S desenhado continuava indecifrável para mim; e era assim, adolescente, que ia vender tralha à feira da ladra. Alguns anos mais tarde, já depois dos meus gostos estéticos terem mudado, vendo de novo o cinto e olhando com olhos de quem já reflecte com cabeça de adulto, não necessariamente melhor, percebi o S e dei conta do pecado cometido. Mas logo ali, sem culpas me absolvi.  O cinto por lá permanece, no sótão, rodeado de tralha do passado.


Filhos e pais

Filhos e pais
Os filhos aparecem e desassossegam-nos para sempre. Trazem primeiro a pequenez e a fragilidade e permitem que nos apaixonemos, irremediavelmente, para o resto das nossas vidas; seguem depois com a descoberta do mundo e a devoção aos seres a quem acharam por bem acolher como pais, a quem recorrem e para quem correm sempre, na procura do seu colo e do calor do seu corpo onde se aninham na única segurança em que confiam, fazendo-nos pensar como somos importantes, como existimos para além da nossa condição humana, como evoluímos para uma condição superior, de pais; descobrem-se como seres individuais e percebem que os pais, afinal,  não são o centro de tudo, enviesados no equilíbrio do mundo em que vivem e, é por essa altura que começa tudo a descambar, primeiro devagarinho em cambiantes discretos e depois à descarada; quando entram na adolescência, percebem que os pais  não são nada daquilo que andaram anos a apregoar e que existem para os envergonhar; passam a fase, passageira,  do conservadorismo marreta com os pais a servirem de saco de pancada! É  deles recriminações do tipo " comporta-te, já viste a idade que tens?!" ou " não percebo o que a vida te ensinou porque com os anos que tens parece que não aprendeste nada!" Tentam, a todo o custo, não serem associados com semelhante tipo de pessoas, os pais; estes só lhes causam constrangimento e embaraço e em público não sabem comportar-se. No entanto, toleram-se porque são o sustento das suas vidas e acreditam que, com os seus constantes ensinamentos, irão aprender, pelo menos, a comportarem-se quando em presença dos amigos dos filhos. Os pais há muito que perderam a importância central no mundo que os rege, os amigos são a referência primeira e destes querem o agrado, o apoio, a aceitação. As confidências que se reservavam aos pais dão-se agora aos amigos, os pais tentam em investidas mais ou menos desajeitadas mas a resposta é "não te metas nisso! "  ou " sabes, o mundo que era o teu já evoluiu, actualiza-te".  Do ponto de vista dos filhos, crescer não é fácil e os pais não ajudam, muitas vezes trapalhões, incoerentes como poucos; primeiro, fazem experimentações pedagógicas: se os filhos são pequeninos as receitas que se conhecem para educá-los são simples e normalmente dão resultado; à medida que os miúdos pensam e tornam-se críticos a frase " Obedeces, porque sim! " já não faz sentido porque a esta frase segue-se outra " Obedeço-te porque sim, porquê?! Já viste que treta de argumentação é essa?". Uma coisa é educar crianças pequenas, está tudo escrito e vai funcionando, com  adolescentes e adultos jovens a empreitada é muito mais complicada; os jovens gostam de argumentar e de tal forma o fazem que, na dialéctica entre pais e filhos, os primeiros desistem por cansaço e falta de prática; coisa que os filhos sabem é discutir e nada melhor para eles que discutir com os pais, skill que nasce e cresce com eles e que se reserva para quando chega a altura e nessas ocasiões, eles brilham! Se nenhuma das experimentações pedagógicas utilizadas funcionam, a chantagem emocional paterna é usada em desespero. Em jovens batidos e já avisados, tais estratégias  não surtem efeito para além das frases de censura " Isso, faz-te de vítima, fica-te muito bem!". Quando por fim, a tão utilizada " Encerrou a conversa!" surge, os filhos argumentam e bem, que é impossível discutir como gente crescida se os pais se arrogam da sua condição autoritária latente para impor algo que deveria ser resolvido pelo diálogo. Uma canseira!